A descrição que Ítalo Calvino faz da cidade de Isidora me transporta a um tempo em que os meus desejos eram já recordações. O tempo do janeiro de vinte e quatro, quando a Maria Emília lamentava a perda de uma extraordinária mulher e educadora:
“Morreu a nossa querida Ana Maria!
Levei 24 horas a digerir. Se alguém não devia, não podia morrer era a Tana. Aberta e generosa, sempre disponível para os outros para as novas ideias e novas práticas, que punha em prática a sua visão de uma pedagogia ativa e que promoveu pioneiramente a inclusão e a filosofia para crianças.
A Pedagogia perdeu alguém que a marcou, Portugal perdeu alguém que sempre lutou pela liberdade e por melhorar o mundo, e nós, os amigos perdemos uma amiga única que era sempre uma alegria encontrar!”
O Presidente da República de Portugal condecorou, a título póstumo, a pedagoga Ana Maria Vieira de Almeida com a Ordem da Instrução Pública, pela sua dedicação "à educação para a liberdade e para a democracia em Portugal".
"Para compreender a democracia portuguesa, é importante compreender percursos como este, porque completaram a resistência dos mais resistentes, foram percursos de procura da esperança, da tal utopia com os pés assentes na realidade, da inovação, e sempre com uma inquebrantável coragem cívica.
Ela quis projetar essa sua luta pela democracia integral na educação. Acreditava que a educação era a forma mais duradoura, mais determinada de mudar as sociedades. E começou a mudar, antes mesmo do 25 de Abril. E nunca deixou de mudar, através da educação."
A Ana tinha fundado e escola A Torre, em 1970, “como alternativa ao sistema de ensino em vigor”. Também nela eu me tinha inspirado, para conceber outra escola “alternativa ao sistema de ensino em vigor”.
A Ana foi uma das raras educadoras que incarnaram o espírito da Revolução dos Cravos. Uma geração de transição que desaparecia, sem que a Educação portuguesa a soubesse honrar.
Só depois da sua morte a Comenda da Ordem da Instrução Pública lhe foi atribuída, sinal de que os professores portugueses andavam muito distraídos, mais ocupados em “dar aula”, em escolas que não se constituíam em “alternativa ao sistema de ensino em vigor”. A profissão “docente” permanecia cativa de atavismos como o do professor solitário em sala de aula. O individualismo corroía a cultura profissional dos professores.
No meu entendimento, a tardia homenagem à Ana não era mais do que uma homenagem ao trabalho de uma equipe: a da Torre. Em 2004, eu fora distinguido com a mesma comenda com que agraciaram a Ana. Entreguei as insígnias à Escola da Ponte, porque a entendi a comenda como homenagem a uma equipe: a da Escola da Ponte.
O chefe de Estado encerrou a sessão de homenagem com um discurso em que elogiou o percurso da Ana e do seu marido, considerando que viveram "um amor ao serviço dos outros”, referindo-os entre aqueles “que mais resistiam e que mais eram perseguidos e que isso fizeram, décadas a fio".
Por que se continuava a elogiar educadores mortos e a perseguir, em vida, aqueles que (em equipe!) criavam “alternativas ao sistema de ensino em vigor”?
