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Cabo Frio, 25 de fevereiro de 2044

Quando um mandante do ministério ordenou que eu retirasse das paredes dispositivos de relação, perguntei por que deveria obedecer à sua ordem. Respondeu que aquilo era “tudo uma palhaçada”, que “voltasse para a sala de aula” e que eu deveria obedecer às ordens de um “superior hierárquico”, a velha e já conhecida cantilena autoritária.

Com todo o respeito, lhe disse que o faria, se ele me dissesse porquê.

Repetiu a cantilena autoritária.

Com todo o respeito pela hierarquia, pedi-lhe que fundamentasse a sua ordem.

“Fundamentar?” – replicou, incrédulo com o atrevimento de um “inferior hierárquico”.

“Sim, senhor inspetor. Diga-me em que modelo pedagógico se filia, qual a proposta teórica, quais os autores dessa proposta, quais os pedagogos que recomendam não utilizar os dispositivos que nós usamos”.

Devo lembrar que, nesse tempo (estávamos em 1976), eu já tinha quatro pais, companheiros da primeira equipe de projeto, e que acabara com salas de aula. 

O inspetor tentou “dar a volta” à discussão. Amainou o tom de voz e perguntou quais eram “as minhas teorias”.

Disse~-lhe que não eram minhas. Eram de Mosconi, Biasutti, Freud e outros. Evoquei contribuições de âmbito psicanalítico.

“Freud? Já ouvi falar!… mas o que dizem os outros?”

“Com todo o respeito, recomendo ao senhor inspetor que os vá ler”.

Furibundo e com a ameaça de me instaurar um inquérito disciplinar, desandou.

Nesse tempo, eu já me havia protegido contra as investidas dos meirinhos ministeriais. Eu agia dentro da lei, enquanto o ministério agia à margem da lei. Eu sabia fundamentar aquilo que fazia, e os inspetores do ministério não sabiam.

Se tiverdes disposição para tal, talvez um dia vos conte estórias de encontros e desencontros com funcionários do ministério. Estou a reunir essas (hilariantes) estórias num livrinho a que darei o título “Estórias que eu nunca hei-de escrever”. Será publicado a título póstumo. o que não deve demorar muito.

Nesse tempo, eu ainda enfeitava a minha datilografia com citações e notas de rodapé. Ninguém é perfeito, e eu acreditava que só colocando as citações entre aspas ou em itálico, com indicação da obra e da página, poderia conferir à minha redação valor científico. Mais tarde, percebi que não era necessário. Os teoricistas isso faziam para disfarçar duas coisas: a sua ignorância, pois eram meros copistas, e a impotência, porque nada daquilo que copiavam conseguiam tornar útil, na prática.

Então, cá vai mais um pouquinho do texto escrito em 1972.

Schmidt e Reich, no enunciado de princípios psicanalíticos do trabalho, são objetivos. Diziam que a nossa tarefa é ensinar a criança a compreender progressivamente o significado das condições reais do mundo exterior e assim incitá-la a ultrapassar o princípio do prazer, a substituir este pelo princípio da realidade. 

Estávamos numa encruzilhada relacional, entre o desejo e a realidade. Biasutti afirmava que a infância tinha valor, não tanto como período de adestramento, mas como período em que se poderia experimentar, livremente, aquela maravilhosa sensação de sermos nós próprios, que predispõe a aceitar melhor as inevitáveis limitações da vida adulta. Mas, de que modo a Escola operava a superação do egocentrismo? 

A Escola introduzia um elemento novo no psiquismo infantil: o do êxito intelectual. Fazia rodear a criança de uma atmosfera de pressão organizada a que, antes, ela não fora submetida. Levava a efeito uma contínua seleção entre os alunos.

Amanhã, vos trarei mais alguns excertos de “fundamentações” escritas numa velha Remington.


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