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Lustosa, 31 de março de 2044

Há precisamente vinte anos, este dia era “Domingo de Páscoa”. Se a linguagem simbólica da Ressurreição era a de podermos dar um salto para novas maneiras de pensar, recomendei aos companheiros e companheiras de velhas andanças militantes a leitura de “O Guardador de Rebanhos”. E, dentro do espírito pascal, propus que se juntasse à leitura desse poema do Caeiro uma frase de Tolstoi:

“A escola deixará de ser talvez tal como nós a compreendemos, com estrados, bancos, carteiras: será talvez um teatro, uma biblioteca, um museu, uma conversa.” 

Dois séculos após a escrita desse texto, o meu ânimo de mudar e inovar se desvanecia. Mas, eis que uma nova geração de educadores despertou de uma letargia de séculos. 

Ressuscitei convicções e fui até à “terrinha”, enfrentar o desafio de repensar a Escola e a Educação. 

Sentia-me ínfima parte de uma fraternidade coautora de uma nova construção social. A pedra de toque de suaves mutações era a solidariedade. A evocação da história do “molho de varas” viria a propósito, mas escolhi outra metáfora: a estória da camioneta do Abílio. 

Perdoai, queridos netos, que eu me tenha viciado em ilustrar com episódios, mais ou menos exemplares, aquilo que pretendo explicar-vos. Isso é defeito de professor de chão de escola. Desta vez, evoco a sabedoria popular do compadre Abílio. 

O amigo Abílio ajudava a organizar excursões de camioneta. Ainda o dia da excursão vinha longe e já um vizinho lhe batia à porta, a pedir para pôr a sogra junto à cadeira do motorista, porque ela lhe dissera que, “se não fosse à beira do motorista, era melhor ficar em casa. E não queira saber os problemas que eu tenho tido co’a minha sogra! Se ela me ficasse em casa, era mais uma carga de trabalhos co’a minha patroa. E o compadre Abílio que me desculpe, mas eu até sei que já fez a vontade a mais alguém, que mo disse ‘inda agora...”

O amigo Abílio cortava a fala ao requerente e prometia o almejado lugar. Porém, não tardava nova fala precatória:

“Ó senhor Abílio, ainda bem que o encontro! O meu cunhado, o Neca... Não me diga que não conhece! Ele pediu-me que lhe pedisse para o filho mais novo ir nos lugares da frente, que o catraio enjoa. Nestas ocasiões, é um pisco a comer e o pouco que engole deita-o fora logo ao chegar à a primeira curva. Não me diga que não! Pela sua rica saúde!”  

Despachado mais um requerente com promessas de “ir ver o que se podia fazer”, logo outro pedido o aguardava à chegada ao café: 

“Deixe estar, que é por minha conta!” – e o generoso pagante do café com cheirinho despedia-se com perentória sentença: “Eu sei que posso ir sossegado à minha vida, que o amigo não é homem para me deixar ficar mal. A minha família vai ir à frente, que os amigos são para as ocasiões, não é? Fique sabendo que é um grande favor que o amigo me faz e vai ver não se há-de arrepender.” 

O Abílio perdia tempo e paciência neste jogo de empenhos. Grandes males, grandes remédios:

“E digo-lhe, professor, os que ajudei a passar a salto para França, coitados, gastavam o que não tinham e não eram tão esquisitos! De maneiras que, um dia, juntei o povo todo na Tojela e, antes de dar ordem de partida ao motorista, fui ao micro e disse, alto e em bom som

Para a próxima, meus amigos, escusam de me andar a pedir para ir no banco da frente, porque a camioneta vai de lado!”

Se há quem continue a impedir que a camioneta do nosso destino comum “vá de lado”, se há quem tente conduzir os passageiros em marcha-atrás, há também viajantes que rasgam amplas avenidas de solidariedade. Enquanto a mudança se queda por discretos e sinuosos percursos, contornam (juntos!) a angústia dos indícios.


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