Pular para o conteúdo principal

Moreira de Cónegos, 30 de março de 2044

Encontrei o seguinte texto numa revista que dava pelo nome de “O Ocidente”:

"O Governo com o seu regulamento dá os meios para se conseguirem os fins, pugna pelo bom carácter civil, moral, do ensino. O aluno refratário, cheio de maldade, não obedece à palavra e tem a certeza da impunidade. 

O professor quer restabelecer a ordem e não o consegue, porque a onda de insubordinação cresce. 

Os mestres quase nada ensinam à falta de disciplina que não há. 

As crianças que são bem-comportadas e desejam aprender pouco aprendem. Daqui nasce a imoralidade das novas gerações, cuja educação não pode a escola conseguir. 

Que interessante é uma escola bem disciplinada! Mas onde a há que deixe de ser perturbada por algum de entre muitos que, saindo do seu tugúrio vem incorporar-se na comunidade limpa e asseada e eivá-la dos vermes da destruição moral, corrompendo pelo mau exemplo os corações bem formados, as consciências limpas.”

O texto de onde extraí este excerto foi publicado no mês de maio de… 1887. 

Também li o depoimento de um anônimo, escrito no início da década de mil novecentos e cinquenta: 

Tínhamos que estar com respeito e atenção. A professora mantinha a disciplina com uma palmatória da grossura de dois dedos, cheia de buracos. E, quando a professora já estava cansada, mandava um dos bons alunos bater nos colegas que soubessem menos. 

E, se batessem devagar, ela batia neles e batia a nossa cabeça contra o quadro.”

O anônimo autor deste depoimento dá a entender que, por via dos métodos em voga, nesses recuados tempos, andavam "tolhidos de medo, era medo por todos os lados, tinham medo de ir para a escola e medo de ir para casa"

Dado que o professor não ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que é, e porque a aprendizagem é antropofágica – não aprendemos o que ouvimos, mas aprendemos o outro – muitos alunos se transformaram em adultos medrosos e egoístas. 

Dado que a aprendizagem acontece por imitação e pelo exemplo, vítimas da ignorância, muitos bonsais humanos impuseram aos seus filhos e aos filhos dos outros a escola da violência física, ou da simbólica, as mesmas de que foram vítimas. 

Nesse tempo, não nos surpreendíamos quando, no fim de uma palestra, víamos o chão do auditório juncado de copos plásticos e outros detritos ali deixados por professores. Não nos surpreendíamos, quando, no fim de uma sessão parlamentar, o chão do plenário ficava coberto de lixo, ali deixado por ilustres deputados. 

A escola hegemônica que ainda tínhamos, ia semeando ignorância e outras violências. Ela fora concebida no início da Primeira Revolução Industrial, correspondendo a necessidades sociais da Prússia Militar: treinar jovens para a guerra, jovens obedientes a um regime disciplinar inquestionável, respeitadores de uma hierarquia imposta. 

Os professores do século XIX não sabiam que a autoridade não rimava com autoritarismo. Que a escola não deveria preparar para a cidadania, mas que se aprende cidadania no exercício da cidadania, no exercício de uma liberdade responsável, na autodisciplina, na verdadeira disciplina, que não resulta de imposições e submissões, mas pressupõe o exercício do diálogo e a desocultação de perversos modos de relação.

Um século após o textinho da revista O Ocidente, no ano de 1988, uma “Proposta Global de Reforma” dizia-nos que “o adestramento não define a educação e que a educação é incompatível com a organização autoritária da vida”. E, nesse ano de 2019, num tempo de pós-verdade, estávamos a assistir a um “regresso ao passado”.

Felizmente, os tempos são outros, queridos netos.


Postagens mais visitadas deste blog

Leiria, 3 de outubro de 2043

Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...