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Ribeirão, 27 de março de 2044

Antigamente, era hábito premiar o dito “professor do ano”, de modo semelhante ao da entrega dos óscares de Hollywood. Decerto, seriam ótimos dadores de aula. Não duvidava da sua competência em sala de aula e presumo que fossem profundos conhecedores dos conteúdos da sua disciplina. 

Também não duvidava da amorosidade, que os “professores do ano” colocavam no seu labor. Mas, o exercício da profissão em sala de aula era manifestação visível de uma cultura profissional eivada de individualismo. A expressão “Professor do Ano” era reflexo de uma cultura profissional feita de solidão de sala de aula, de autossuficiência. E os rankings eram instrumentos de comparação de pessoas. Como se fosse possível comparar professores. 

Quem estivesse na disposição de assistir às reportagens da entrega do prémio escutaria o premiado dizer que “estudar é uma coisa para todos”, quando deveria dizer que a educação é um direito de todos. Que “os alunos têm ciclos de atenção durante uma aula, que lhes permitem estar realmente empenhados”, refletindo total ignorância no que tangia aos princípios gerais da aprendizagem e sem referir que esses ciclos de atenção eram escassos, ou que, numa aula de 50 minutos, se perdiam muitas horas de aprendizagem. 

Na cerimônia de premiação, havia tempo para contar anedotas de mau gosto, como aquela que se segue: 

“Quando nós conseguimos respeitar o ritmo dos alunos e permitir que eles próprios controlem o ritmo da aula...” 

Nunca alguém conseguiu explicar de que modo o professor conseguia alcançar tal prodígio no contexto de uma sala de aula. Mas cheguei a escutar de um candidato a “professor do ano” este lamento: 

Tenho lá um aluno que faz muitas perguntas e que me quebra o ritmo da aula!” Netos queridos, sabeis o que é “o ritmo da aula”? Nem eu!

Numa reportagem da premiação, sem noção do ridículo, o locutor também dava ares da sua graça: 

O Professor pede aos alunos para escreverem um resumo do que é dito na aula, a cada 15 minutos. E até premeia os melhores.” 

Na palhaçada (sem ofensa para os palhaços profissionais) dos concursos de “Professor Nota 10”, se elogiava o professor que “premiava”, à boa maneira pavloviana, ou skineriana, como era recomendado que os professores fizessem, décadas atrás.

Por seu turno, o Júri – pessoas dignas de admiração, mas para o quais as ciências da educação eram ciências ocultas – ironizavam: 

As escolas têm modelos educativos extraordinários. O que atrapalha são os alunos, não é… ? Os professores dizem que são os alunos que são assim, são os alunos que são assado…”

A segunda frase, enquanto lusa e vulgar expressão, poderia passar por metafórica. Porém, o meu mau feitio forçava-me a ser denotativo e a recomendar que, nessa frase, houvesse concordância entre sujeito e predicado: “os alunos são assados”. Literalmente! Nas salas de aula, os alunos “assavam”. O seu senso crítico era sequestrado, a sua capacidade criativa ardia em forno lento, o direito à educação era reduzido a cinzas.

Há mais de meio século, sozinho, numa sala de aula, também eu me considerava o “melhor professor”. Quando dei sumiço às aulas, passei a não competir, mas a cooperar com os meus colegas, passei a trabalhar em equipe. 

Naquele tempo, não era raro ver premiar com o Nobel, não um cientista isolado, mas uma equipe. E, quando um cientista discursava na cerimônia de entrega do prémio, fazia-o, quase sempre, agradecendo à sua equipe, lembrando que é pela partilha do engenho humano que a inovação acontece. 

Mas, os dadores de aula “Nota 10” eram premiados porque faziam, exatamente, o contrário.  


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