Na madrugada da passagem pelo Agreste, o que mais me chamou a atenção foi o cortejo de crianças, mochilas nas costas, esperando o transporte escolar. Conversei com algumas e com a mãe de uma delas. A filha havia sido acordada cerca das cinco horas. Todos os dias era retirada do leito de madrugada. Cerca de uma hora, caminhava por estradas de pó e espinhos, até ao ponto onde o ônibus a esperaria, quando fossem sete horas.
No ônibus, as crianças dormitavam. O cansaço marcava o semblante de todas. Segui o trajeto do ônibus escolar. Aos trancos e barrancos, após meia hora de padecimento, num trajeto de buracos e alguns pedaços de estrada, eis-nos chegados a um prédio, que denotava abandono e a que chamavam… escola.
Na Brasília daquele tempo, crianças moradoras em São Sebastião, por não haver “vaga” – o conceito de vaga era um absurdo, um dos sutis modos de negar o direito à educação – eram obrigadas a enfrentar transporte para outros locais do Distrito Federal, Crianças de tenra idade eram transportadas em ônibus alugados pela secretaria de educação. Os alunos mais velhos enfrentavam o transporte público, alguns precisando de quatro passagens, para chegar à… “escola”.
Mensalmente, se desperdiçava um milhão e seiscentos mil reais! Certamente, os funcionários responsáveis pelo transporte escolar ainda não haviam tido tempo de ler o documento orientador da política educacional da sua da secretaria, no qual Anísio sugeria uma gestão de espaços educacionais alternativos ao da “escola da vaga”. Dizia que a escola deveria ser o bairro, a comunidade… onde não era preciso transporte escolar.
Uma “especialista” do departamento de transporte escolar interpelou-me:
“O senhor doutor é um europeu, não consegue entender. Não vê que, aqui, é preciso levar as crianças para a escola?”
Retorqui:
Minha senhora, não foi um pernambucano que escreveu que aprendemos uns com os outros mediatizados pelo mundo? Não consta que o vosso conterrâneo tenha escrito “mediatizados por um prédio”.
Escolas são pessoas, não são prédios, minha senhora”.
Um esgar de desagrado e desdém atravessou a face da “especialista”. Ignorou a minha interpelação. Passou, também, a ignorar a minha presença. E essa secretaria de educação nunca mais me convidou para “palestrar”. Naquele tempo, a Ponte já era um incómodo para corruptos, teoricistas, seitas pedagógicas e máfias de transporte.
