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Carapicuíba, 22 de abril de 2044

Neste dia do já distante 2024, fui com a Helena, a Mónica e a Ludmilla até à Boa-Água, ao encontro do amigo Nuno. Fomos inaugurar um diálogo entre escolas, que pudesse contribuir para a melhoria do trabalho com as crianças e os jovens. O vosso avô ainda acreditava na possibilidade de melhoria do sistema de ensino. Mais tarde, concluiria que, nesse encontro e em outros que se lhe seguiram, os educadores que acompanhei no abril de 24 seriam protagonistas de uma mutação genética do sistema de ensino. 

Quatro anos antes, uma pandemia havia mostrado a necessidade de rever processos, métodos e princípios educacionais, de modo a evitar a produção de bonsais humanos, cuja a ignorância e a insensibilidade, tantas vítimas causaram. 

No Centro Médico Erasmus, com referência a novos modos de aprende, médicos obtinham sucesso no tratamento da covid e pesquisadores afirmavam ter encontrado um anticorpo contra o vírus – o plasma de pacientes recém-recuperados podia tratar outros infectados. Com tratamentos alternativos, uma avó chinesa de 103 anos se recuperara totalmente… e a Apple reabria todas as suas lojas da China.

Os noticiários veiculavam essa informação e alguns governantes brasileiros tomavam decisões responsáveis, como o confinamento nos lares, para suster o contágio. Na contramão do bom senso e da ciência, manifestações de irresponsável liderança, contribuíam para semear a visão do apocalipse. Se um bispo afirmava que o desprezo à ciência poderia ser desastroso, um pastor garantia que ninguém iria pegar coronavírus em um culto. E enfatizava: 

Se algum crente botar o pé aqui [no culto], esse vírus morre.” 

A crendice desprezava a medicina. A preocupação com a bolsa de valores parecia maior do que garantir a preservação da vida humana. 

No decurso da crise vírica, nas gôndolas de muitos mercados, dois produtos haviam sumido: papel higiénico e jogos de tabuleiro. O corpo brincante das crianças, confinado ao espaço do seu lar, se limitava a sedentárias ocupações. Por força das circunstâncias, o espaço restrito da casa limitava o brincar de gestos amplos, expansivos. O brincar restrito a jogos de concentração intelectual contribuía para consolidar o resultado do uso prematuro do computador. 

Se uma criança de tenra idade chorava, ou usava o grito para captar a atenção dos adultos, de imediato, os progenitores não lhe colocavam na boca uma chupeta, nem lhe punham na mão um clássico brinquedo, mas uma consola de jogos, ou um celular. As crianças desaprendiam de se mover e de brincar. O amigo Carlos Neto que o diga!

Após a crise, seria necessário repensar uma economia predatória e recriar um modelo de economia solidária. Eu temia que a normose regressasse e não houvesse um “novo início”, temia que se continuasse a ignorar a necessidade de mudança no sistema educacional, quando já se dispunha de práticas potencialmente inovadoras. 

Na manhã do dia 22 de abril de 2024, reunido numa escola onde uma efetiva mudança educacional acontecia, me lembrei de que fizera uma visita à Casa Redonda de Carapicuíba. Nesse lugar mágico, convivi com a alegria espontânea das crianças. 

Observei-as, enquanto brincavam, no exercício de uma liberdade que lhes permitia viver seu próprio tempo. Eram de elevada qualidade as experiências vividas pelas crianças e potencialmente propiciadoras de aprendizagens significativas. 

Já os gregos da antiguidade clássica sabiam que o ócio é o tempo necessário para o desenvolvimento da reflexão e da capacidade de pensar. E uma verdadeira scholé – o “lugar do ócio” – ali acontecia. 


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