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Cotia, 15 de abril de 2044

A vida é um constante recomeço, sem princípio nem fim, uma ininterrupta viagem. E andava eu pelo Alentejo profundo... 

No restaurante “A Pipa”, petiscando migas e vinho tinto, me preparei para assistir a uma performance, que acabou por ser uma dolorosa exceção. Conversando com o Jorge e a Saudade, entendi a razão do meu cansaço. No primeiro dia deste mês do distante dois mil e onze, falecia o meu amigo Walter Steurer. Chamo-lhe amigo, mas poderia chamar-lhe irmão, porque estávamos irmanados num mesmo propósito: salvar vidas de jovens. 

Foi isso que o amigo Walter me pediu, em 2007, quando nos conhecemos. Disso dá conta a carta, que me enviou, em dezembro:

“Caro amigo, Professor José Pacheco, 

Quando nos encontramos, em 2007, naquele Encontro de Educação, no Projeto Âncora, conversamos sobre nosso sonho de fazer da entidade uma escola, uma escola como sonhamos e sabemos que é possível existir. Na ocasião, você nos disse que poderíamos contar com sua assessoria. Achamos que a hora está chegando. 

Ano que vem, poderia ser o ano de organização dessa escola, para, em 2010, começarmos a funcionar. Uma escola modelo para Cotia, escola a ser seguida pelas escolas públicas da região e, por que não, também as particulares.

Será que poderíamos conversar sobre isso? Começar a sonhar a realidade? Começar a construir o sonho? Marcamos um encontro? Aqui, ou em sua cidade? Quando? Podes escolher. Aguardo ansioso e esperançoso.

Receba meu abraço fraterno e os votos de Boas Festas.

Walter Steurer, Projeto Âncora.”

Quando perguntei ao Walter por que queria que eu o ajudasse a fazer a escola dos seus sonhos, respondeu:

“Aqui, nós só fazemos contraturno de escola. Mas é como tentar enxugar gelo. Estes jovens praticam desporto, fazem formação na oficina de circo, aprendem música, ou como se faz um mosaico. Mas, no dia seguinte, depois de passarem pelas suas escolas, chegam iguais ao dia anterior e perdem-se. Eu quero salvar a vida desses jovens. E só com uma escola isso será possível.”

Alguns anos mais tarde, a minha amiga Josineide publicou um resumo da sua dissertação de mestrado, a obra “Escola Projeto Âncora – Uma Ponte para a Inovação Pedagógica no Brasil”. Ontem, quando arrumava a biblioteca, encontrei esse livro. E nele li: 

É uma prática que corrobora com o desenvolvimento do estudante, através do incentivo na visão do ser social, do que se podia fazer pelo outro e com o outro; das habilidades e valores que poderiam servir de alicerce para a construção do ser humano presente em cada estudante da Escola Projeto Âncora.

O professor é tão aprendiz quanto o estudante. E a ausência da palavra aula é, de fato, a expressão da ausência dela. Não existe aula, mas construção de conhecimento. E a sua construção foi fundamentada em autores brasileiros, sendo respeitada a cultura do país.

É uma ruptura! Há Inovação. Assim mesmo, com letra maiúscula.”

No início de 2011, a Regina me comunicava estar o seu marido muito doente. No primeiro dia desse mês, o meu amigo perdia a sua luta contra um câncer. No leito de morte, dissera à esposa: 

Pede ao Professor Pacheco que venha fazer uma escola.

Com a Cláudia, tomei a decisão de me mudar de Minas Gerais para São Paulo. Fizemos parte de uma equipe de extraordinários educadores, ajudando a erguer um projeto, que viria a ser considerado um dos melhores projetos, que o Brasil e o mundo já viram.  

Durante quatro anos, fui educador voluntário no chão da Escola do Projeto Âncora. O sonho de um homem bom virou realidade.

Meia dúzia de anos decorrida, esse sonho foi atraiçoado. A corrupção moral o destruiu.


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