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Itapoá, 20 de abril de 2044

Ao passar pelo local onde, há vinte anos, existia a Escola Zilda Arnes, lembrei-me da minha amiga Carol, que nela semeou humanização. Esses eram tempos de confinação de crianças em prédios a que chamavam “escola”. 

Arquitetas de novos tempos, a Carol e a Marina repensavam o papel da escola e se preparavam para ressignificar espaços de aprendizagem no Paranoá e no Itapoá, de modo a que a instituição cumprisse a sua missão de produzir conhecimento e de reelaborar cultura, em diálogo com outros lugares de criação cultural. 

Na semana anterior e na Itália, o arquiteto do Centro Cultural de Belém, o criativo Vittorio Gregotti, fora a primeira vítima ilustre da covid-19. Em 2019, nesse CCB se havia reunido um grupo de educadores, que buscavam alternativas à escola-prédio. E, no mês de março de 2020, com o alastramento da pandemia e talvez não por coincidência, as escolas-prédios viraram desertos. 

Os jovens residentes em condomínios passavam os dias no interior das suas casas, polegares batendo tecla de ifone e celular. Ou assistiam a “vídeo-aulas”, prodigamente enviados pelos seus professores, através da Internet. Por seu turno, aturdidos pela súbita alteração do seu papel, os professores, refugiavam-se nas suas casas, passando os dias frente ao computador, na busca de informação sobre a evolução da pandemia e a exportar inúteis vídeos.

Assim como os prédios das escolas haviam sido guetos de infância, lugares de suposta segurança, os altos muros do condomínio pareciam proteger os condôminos de assaltos e vírus. Se alguma faxineira ainda nele entrasse, todos os objetos tocados eram lavados e totalmente desinfetados. Se o carteiro entregasse alguma correspondência, as mãos de quem a recebia eram cuidadosamente lavadas e passadas por um milagroso alcoól protetor.  

O mundo demandava uma nova maneira de nos relacionarmos, um vírus nos oferecia a oportunidade de conviver na experiência da dádiva, para resgatar a fluidez da partilha. Na cooperação encontraríamos caminhos de uma nova educação. Mas, a Humanidade não entendeu a mensagem. 

O vírus não era o maior dos perigos, perigosos eram os vírus do egoísmo e do medo. As faxineiras e os jardineiros, cuja sobrevivência dependia dos serviços prestados nos condomínios, foram dispensados. As manicures e barbeiros entravam em desespero, por não haver mais clientes para cuidar e já por faltar o sustento das famílias. O egoísmo e o medo faziam com que já faltasse o álcool em gel e o papel higiénico nas gôndolas dos mercados.

Na Idade Média, as pestes dizimaram povos. mas também mataram gente da nobreza e do clero, quando penetraram nos castelos. Muitas das muralhas de pedra foram substituídas por muralhas simbólicas. E os residentes em condomínios acreditavam estar protegidos. Estariam? 

Uma narrativa Sufi descreve o modo como havia sido destruída uma inexpugnável fortaleza islâmica do século XII. Outro conto Sufi nos avisa de que nem as mais altas muralhas resistem ao desgaste operado pelo egoísmo e pelo medo.

“A Peste ia a caminho de Bagdá quando encontrou Nasrudin, que lhe perguntou:

Aonde vais?

A Peste respondeu:

Vou a Bagdá, matar dez mil pessoas.

Dias depois, a Peste reencontrou Nasrudin. Muito zangado, o mullah disse-lhe:

Mentiste-me. Disseste que matarias dez mil pessoas e mataste cem mil.

A Peste respondeu:

Eu não menti, matei dez mil. O resto morreu de medo.”

Por volta de 2024, urgia cuidar dos professores e proteger as crianças da Peste instrucionista. Fui a Portugal, para ajudar educadores sem medo a assumir um compromisso ético com a Educação.


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