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Jataí, 25 de abril de 2044

Netos queridos,

Na minha provecta idade, passo a vida a vasculhar o fundo das gavetas, para ler notícias, que ainda guardo em papel. Juntei algumas numa estória que vai do “maio de 68” a uma madrugada de abril, dois anos antes do nascimento do vosso pai. Cá vai.

Aprendi a tocar violão com o meu amigo Valdemar. Aprendizagem interrompida, para que ele cumprisse serviço militar e fosse combater a guerrilha, em Moçambique. Faltava menos de um mês para o Valdemar terminar a sua missão numa guerra sem fim à vista. Quando regressava de uma incursão, na Berliet dos feridos, avistou uma criança, sentada na copa de uma árvore. 

A criança acenou, parecendo afável. O Valdemar correspondeu à saudação com um sorriso e a simulação de um abraço. No instante seguinte, a criança atirou uma granada defensiva para dentro do caminhão. 

Na última carta, que recebemos de Valdemar, o meu amigo dizia da sua satisfação de regressar ao lar. Voltou dentro de um caixão lacrado. Destino idêntico teve outro amigo, o Eduardo. Voltou da frente de combate de Angola, com uma bala alojada na cabeça. O seu sofrimento durou menos de dois meses. Faleceu durante uma operação cirúrgica. 

Ao cabo de meio ano de desgaste na frente de combate da Guiné, o meu amigo e inspirado poeta Miguel foi dado como “incapaz”. Ao cabo de dois anos de tratamento psiquiátrico, suicidou-se.

Cansei-me de perder amigos e juntei-me a quem conspirava contra a ditadura. Isso me valeu passar por situações, que não descrevo, porque não vos quero impressionar. A minha correspondência estava vigiada – as cartas, que a Censura deixava passar, chegavam abertas e com um número no envelope. Exceto aquela que continha a convocação para prestação de serviço militar obrigatório. 

Companheiros da clandestinidade trouxeram-me um plano de fuga. Poderia percorrer a senda de muitos jovens da minha geração, que tinham desertado, atravessado a fronteira, rumo a um doloroso, mas protetor exílio. Optei por ficar no meu país. Era frágil o coração da mãe Luiza. Não suportaria a ausência do seu filho.

Nas frentes de guerra em África, a maioria dos meus colegas de profissão desempenhava tranquilas missões de retaguarda. Eu, que era o único estrábico dessa geração de professores, que não conseguiria acertar num alvo a dois ou três metros de distância, fui para… atirador de infantaria, tropa de combate. 

Eu tinha andado pela Guiné, sabia que se para lá voltasse, fariam de mim carne para canhão. A Ditadura se vingava, mas quem se vingou foi o vosso avô. Naquele dia de abril, um professor pacifista vestiu farda de combate, foi ajudar a fazer uma revolução, contribuir para libertar o país de uma ditadura de 48 anos. Portugal voltava a ser a “terra da fraternidade” cantada pelo Zeca. 

A minha amiga Magda dizia que comemorar o 25 de Abril deveria ser uma tarefa diária. E a “tarefa diária” do 25 de abril de 2024, se cumpriu sob a forma de dádiva recebida do meu aluno João, filho do meu aluno Pedro. Desfrutei do privilégio de partilhar uma mesa de debate com um extraordinário ser humano.

O meu amigo Pinheiro havia dedicado toda uma vida a um intenso voluntariado, em particular, nas “Escolinhas de Ringe”. Na Associação de Moradores do Complexo Habitacional de Ringe, numa vida dedicada ao serviço do próximo, o Senhor Pinheiro iniciou na arte de bem jogar futebol alguns dos melhores jogadores de futebol do mundo – por exemplo, Diogo Costa e Vitinha. 

Mas, o meu amigo Pinheiro soube ir além de ensinar uma técnica. Através do desporto, formou cidadãos democráticos, sensíveis e solidários, incarnou o “espírito de abril”. 


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