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Magé, 23 de abril de 2044

No tempo em que o COVID-19 se instalava, havia quem contrariasse conselhos de amigos e governamentais imposições. Jovens transgressores esgueiravam-se do ninho protetor, para ir “brincar lá fora”, batendo polegares em computadores. “Turmas” de solitários seres, reproduziam o modelo escolar. E a “aula” do século XIX instalava-se nas ruas e nos lares do século XXI. 

Apesar dos pesares, o confinamento imposto ajudou a salvar muitas vidas. E foi, também, oportunidade de conhecer outras vidas, pois vizinhanças ocultas se revelaram. A solidariedade tomou forma de mensagens de rede social. Como aquelas que evocarei nesta cartinha. 

A primeira era de leal franqueza e dizia: 

Professor, por que passa a vida a escrever? Pouca gente lê e são poucas as minhas colegas que o entendem. E até se ofendem, quando o professor diz que não se deve dar aula.”

Essa professora tentara demover as suas colegas do rame-rame da ensinagem tradicional. Em vão tentou. Colheu desdém. E sofreu efeitos colaterais da sua solidária atitude, que a levaram ao divã do psiquiatra. 

Por aí se quedou a sua intenção de mudança, que não a da minha amiga Cecília. 

A sua vida foi dedicada a inventar modos e lugares de fazer pessoas sábias, seres humanos felizes. Dotada de uma enorme força de vontade e de uma amorosidade ilimitada, dera forma a um dos mais inovadores projetos, que o Brasil conheceu: o Projeto Alto Independência de Petrópolis. 

Quando professores antiéticos extinguiram o projeto, a Cecília foi semear humanidade em outros lugares. Dois anos decorridos e em plena crise do vírus corona, dela eu recebia notícia: 

Passamos por um momento difícil com a pandemia do Coronavírus, que acabou mostrando muitas fragilidades escondidas em rotinas e sistemas, que estão agora escancaradas para a sociedade. Estas fragilidades deixaram a todos perdidos, ao se verem em isolamento. 

Vejo escolas e secretarias de educação em desespero, com medo de o currículo sufocar a todos, com o ano letivo atípico. E vejo, a cada dia que passa, mais e mais estratégias de enviar conteúdo para casa, em horários marcados para pegar o material na escola, para estudar com ele em casa (parecendo que só é legitimado o conhecimento organizado ali), banco de  atividades propostas por professores, separadas por ano de escolaridade, aplicativos, plataformas...” 

A psicologia da memória diz-nos que a melhor memória de um velho é aquela a que chamam de “longo prazo”. Talvez os psicólogos tenham razão, porque me recordo perfeitamente de, no dia em que recebi as mensagens da Cecília e do André, ter escutado de uma casa próxima sons de contenda:

“Vai já fazer a tarefa que a professora mandou! Já a mandei. E não repito!” – era a voz de uma mãe preocupada, ordenando à filha que fosse lesta a cumprir as tarefas, que a secretaria de educação tinha despachado pela Internet.

“Não quero! Já disse que não quero!... 

Pronto! Já vou!”

Eram bem audíveis os gritos chorosos de mãe e filha, altercando.

Por amor, a mãe da chorosa criança obrigava a filha a engolir “currículo pronto a vestir”. A “overdose de tarefas de casa” recebida da secretaria de nada servia, a não ser para manter as crianças absurdamente ocupadas. 

Na sala de aula, os professores tinham fingido que ensinavam e as crianças tinham fingido que aprendiam. No conforto dos lares, as crianças cumpriam tarefas sem sentido e os pais acreditavam que elas estavam aprendendo. 

O sistema de ensinagem possuía grande capacidade de assimilação e adaptação. Mas, volvidos quatro longos anos, a minha amiga Cecília foi nomeada… Secretária de Educação.


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