Já vos falei de amigos meus, mas, nunca será demais evocar extraordinários seres humanos, de educadores amorosos, que me foi dado conhecer. Sobretudo, quando observava a obra que ele nos legaram. No tempo da primeira pandemia deste século, quando se anunciava o fecho de fronteiras, um amigo esperançava:
“Se o meio ambiente não une os povos, nada como um vírus para lembrar que não existem fronteiras e que somos todos moradores da mesma casa.”
O Torga havia dito o mesmo, mas em verso, há quase um século: de um lado terra / do outro lado, terra / de um lado, gente / do outro lado, gente.”
Para que conste e a memória não se apague, vos falarei de uma época de fronteiras físicas e de outras mais sutis, de um tempo em que o diálogo escasseava. E recorrendo, mais uma vez, a mensagens recebidas desse bom amigo:
“Se nós não nos cuidarmos, vamos adoecer psiquicamente e perder o equilíbrio, e praticar uma comunicação agressiva com quase todas as pessoas do nosso convívio.
Precisamos acalmar o nosso coração e sermos mais leves e mais maduros. O ódio cega e nos aprisiona. O caminho não é responder com o ódio. É responder com amor. Ser crítico, mas sem adoecer e sem colocar os problemas do mundo nas nossas costas.
A não-violência só será estabelecida na sociedade, quando nós pararmos de nos violentar e de nos agredir. Não estamos lidando apenas com ameaças virais — outras catástrofes já estão surgindo no horizonte: secas, tempestades fora de controle.”
Na mitologia grega, Gaia é o nome da deusa da Terra, companheira de Urano (Céu) e mãe dos Titãs (gigantes). É a personificação do planeta Terra, que é representada como uma mulher gigantesca e poderosa. Em homenagem à deusa grega, a Teoria de Gaia (também conhecida como “Hipótese de Gaia”) descreve a Terra como um organismo vivo com capacidade para manter e alterar suas condições ambientais.
A “Hipótese Gaia” dizia-nos que a biosfera e os componentes físicos da Terra estavam intimamente integrados, formando um complexo sistema, que mantinha as condições climáticas em homeostase. As reações do planeta às ações humanas não seriam mais do que respostas autorreguladoras desse imenso organismo vivo.
Porém, nesse conturbado tempo, sozinha, talvez Gaia não conseguisse resolver a delicada situação. Talvez tivesse que contar com uma ajudinha dos humanos e com o surgimento de um vírus benigno, transformador.
Na Brasília de entre julho de 2015 e julho de 2016, partilhei práticas da Escola da Ponte e do Projeto Âncora sob a forma de encontros de formação. Contemplamos as quatro dimensões da sustentabilidade: social, ecológica, econômica e cultural. Decorridos alguns anos, a “Hipótese Gaia” era discutida no Facebook e as teorias da conspiração surgiam e desapareciam no frenético ritmo do WhatsApp.
Apercebermo-nos de que a humanidade não havia entendido a mensagem de um vírus. Então, decidimos fazer uma nova formação, uma formação começada pelo FAZER. Propondo, mais uma vez, o diálogo construtivo, não mais hesitando, corajosamente desobedecendo e resistindo, esse tempo feito de medo e mentira foi, também, tempo de esperançoso recomeço.
No abril português de vinte e quatro, recomeçamos.
