O meu amigo Rubem Alves passava alguns dias na minha casa. E, mais uma vez, o levei a visitar a Escola da Ponte. Pelo caminho, fomos escutando um concerto para piano. Estacionei o carro junto à escola, mas dele não saímos. Após escutarmos o segundo andamento, um reverente silêncio se instalou em nós. Ao meu lado, visivelmente, emocionado, o Rubem enxugava furtivas lágrimas.
Emocionado já eu o vira, nas nossas visitas ao seu sítio de Pocinhos de Rio Verde e a Valinhos. Nessas viagens, era o Rubem quem dirigia. E, sempre que ele parava a viatura, eu sabia que isso se devia a ter surgido a visão de um ipê. Quando perguntaram a uma criança quem tinha sido Rubem Alves, a criança respondeu:
“O Rubem era um homem que gostava de ipês.”
No livro “A Escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir”, o Rubem escreveu:
“Quero uma escola que seja iluminada pelo brilho dos inícios.”
Sempre com o brilho dos inícios! Como fazem as crianças e os adultos, que não matam a criança que há em cada um de nós. O Rubem dizia que, quem mata a criança grande que tem dentro de si, não fica adulto – adultera-se.
De visita a Portugal, passei um domingo na companhia do meu filho André e do meu neto Marcos. Por momentos, dei por mim a recordar outro encontro, quando, no colo do seu pai, o Marcs balbuciavas uns sons só aparentemente desconexos. E eu, que estava longe de ser um entendido na palavra pura, que ainda confundia uma arenga babélica com a fala transparente, não conseguia traduzir o teu balbuciar.
Este avô, ainda que empenhado no desaprender do palavrear adulto, deturpava o verbo virginal, confundindo-o com o linguarejar de adultos tagarelas. Subitamente, o Marccos fixara o seu olhar num ponto qualquer, como quem depara com o Aleph. Não interrompi a absorvente contemplação e segui a direção do seu olhar. Fixava-se num dos gestos rituais de passagem de ano, protagonizado por um adulto comendo uvas raquíticas e formulando desejos para um ano que começava, e no qual iria repetir os mesmos erros que desejou não cometer no último dos dias do ano anterior. Os adultos eram mesmo assim. Viviam viciados no futuro.
Não sei se te recordarás, querido neto, de um livrinho, a que chamei “Para os Filhos dos Filhos dos Nossos Filhos”. Ele nasceu nessa noite de passagem de ano e viria a ser transformado numa bela peça de teatro, pela minha amiga Janaína. Escrevi-o especialmente para ti. Era como que uma história da educação contada às crianças, que só terminaria no tempo dos filhos dos filhos dos filhos dos vossos pais, na Idade da Educação.
Nesse livrinho, eu recuperava a velha fábula do Adam Férrière. No início do século XX, esse pedagogo da Escola Nova publicara um texto com o título “Escola Invenção do Diabo”. E só mesmo o Diabo poderia inventar uma escola onde se proibia as crianças de ver o mundo com olhos de inícios.
Estávamos no abril de vinte e quatro, tempo de profundas transformações. O amigo Luís aproveitava oportunidades de contornar dificuldades e não se fechar ao novo. Abria as portas da sua escola a educadores que, como o amigo Alfredo, me enviavam fraternas mensagens:
“Querido José, é uma grande alegria sentir o teu esforço por perto.. Não duvides de que estás a produzir resultados na nossa vida e na vida da Glorinha. Espero muito que a sinfonia da Primavera no Freixo te acolha como mereces.”
