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Valparaíso de Goiás, 24 de abril de 2040

Queridos netos, esta cartinha contém a transcrição de mensagens, que guardei no baú das velharias, para que a memória de absurdos educacionais não se desvanecesse. Eis a primeira, recebida no WhatsApp: 

“Boa noite. Já que isto aqui é uma rede de ajuda, eu queria saber se, no grupo, há mais alguma mãe surtada, ou se só seu eu mesmo. Porque vou ser muito sincera com vocês. Dever de casa acabou. Acabou a paciência. Acabou a responsabilidade social. Acabou tudo! Já não tou dando conta, não! Tou surtada, entendeu? 

Por amor de Deus! Estou ficando com ódio de professor que manda fazer exercícios. Lá na Espanha, já resolveram que esse negócio de homeschooling também estressa as mães. A sério! Eu não sou pedagoga! Como é que eu vou fazer, agora, para cozinhar, para limpar e ainda fazer homeschooling?”

Outra mãe assim se expressava: 

“Eu estou nessa situação com minha filha no ensino médio. Ontem, ela precisou scanear e enviar para o e-mail da professora uma lista de palavras para separar as sílabas. E todos os professores mandam links e mais links, tarefas e mais tarefas!

Ontem, recebi o e-mail de um aluno de 11º ano, que é um jovem cheio de energia, completamente em pânico. Ninguém lhes explica nada! Estivemos mais de uma hora a teclar no Messenger. Ele não quis chamada de voz, para a mãe não ouvir e não ficar preocupada. E lá foi dormir, espero eu, mais tranquilo. 

Vou comentar e já sei que me vão criticar, mas é o que penso. Repensemos o que é realmente relevante! A nossa preocupação fundamental devia ser o equilíbrio do aluno e não a sobrecarga de tarefas, que o obrigam a estar sentado em frente ao computador. 

Não entendo esta necessidade de se enfatizar o pior das práticas, os montes de fichas e testes, em vez de se destacar a janela de oportunidade de processos diferentes e inovadores. 

É só lives e mais lives. Hoje, ouvi uma pessoa dizer que estava com medo de abrir a geladeira e encontrar uma LIVE lá dentro.”

No Brasil, era essa a triste situação. Em Portugal, as “ajudas” às famílias surgiam sob a forma de paliativos como as “atividades de enriquecimento curricular” e de “apoio à família”. E o CNE naturalizava as “explicações”, confirmando a falência de um modelo de ensino obsoleto, denunciado pela Montessori, há mais de cem anos.

As bases do dito “sistema educativo” não se modificavam. Era um sistema educativo deseducativo. Era um sistema deseducativo engendrado nos quartéis da Prússia do século XVIII e nas fábrica inglesas do século XIX, que não arredava pé dos gabinetes dos ministros, nem das salas de aula das universidades. Nos últimos duzentos anos, com a cumplicidade de ministros e doutores, a escola da sala de aula havia recusado o direito à educação a milhões de seres humanos. 

Na Primavera de vinte e quatro, realizei o último dos meus périplos europeus. Em vésperas da comemoração dos cinquenta anos da Revolução dos Cravos, a Paula, a Rita e um punhado de pais e professores prepararam um encontro que reuniu quase uma centena de educadores decididos a mudar de sistema. 

Embora já soubesse a resposta, eu perguntava-lhes:

“O que vos move?” . 

O que movia um generoso João Rosa, que, já tarde da noite, nos levou de Leiria para as Caldas e nos deu guarida e alento, para continuar na estrada?

Iriamos acabar o dia seguinte na terra onde uma escolinha mostrara ao mundo ser possível conferir a todos os seres humanos o inalienável direito à educação. 

De passagem por Santo Tirso, iria ver e ouvir o Jorge Palma cantar:

“Enquanto houver ventos e mar, a gente não vai parar. Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar.” 


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