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Barra do Piraí, 28 de junho de 2044

Se, nos idos de vinte, eu perguntasse a um professor português se lera algo de António Sérgio, de Adolfo Lima, ou de Bento de Jesus Caraça, a maioria nem os nomes reconheceria. Não restava dúvida de que tinham sido muito maltratados na formação inicial.

Perguntava a professores brasileiros se conheciam a obra de Lauro, ou da Nise. Esses e outros nomes não eram “familiares” à maioria. De que autores teriam ouvido falar na formação continuada? 

Ao lado de Freire e Anísio, esses e outros insígnes educadores produziram vasta obra, acompanhando rupturas paradigmáticas operadas num vertiginoso ritmo. Mas, os professores disso não se deram conta. 

Após décadas de adaptação de teorias a realidades mutantes, Thomas Kuhn foi escutado, quando nos falou de um paradigma emergente. Nos estados-nação do século XIX se gestou a Escola da Modernidade. Fundada no paradigma da instrução, respondeu a necessidades sociais da época e atravessou todo o século XX. A “escola tradicional”, como era chamada, tinha por referência a filosófica proposta de Coménius, que, no século XVII, dizia ser possível ensinar todos como se fossem um só. 

A par da denúncia de Ferrière, que dizia ser a escola uma invenção do diabo, Montessori, Steiner, Decroly, Freinet, Dewey e muitos outros escolanovistas propuseram que se passasse do magistercentrismo à centração da atividade escolar no aluno. 

Com a descoberta do computador, a segunda revolução industrial emergiu, para logo dar lugar a uma terceira, aquela que marcou a aparição da Internet e da automação. As escolas passaram a adotar a lousa digital, fez-se educação à distância, foram criadas redes de ensinagem. 

Entre a primeira e a segunda revolução industrial, o carvão foi substituído por outra fonte de energia: a eletricidade. O telégrafo deu lugar ao telefone. A máquina a vapor foi considerada obsoleta. Mas a escola continuava tão obsoleta como dantes. 

E assim entramos no século XXI: no advento da Internet das coisas e do wi-fi universal, um paradigma humanista predominava nos documentos de política educativa. Porém, no vosso tempo de escola, ainda pontificava o paradigma racional, a par do tecnológico, que ganhava relevância, por efeito da ingenuidade pedagógica de entusiastas do uso das tecnologias digitais e de um financiamento maciço de pseudo-inovações.

Com os trabalhos de Catells, Maturana, Lauro, Freire, Morin, um novo paradigma emergia, entretanto: o paradigma da comunicação. Mas, as escolas a ele se mantiveram alheias.

Na universidade vivia-se na ilusão da ensinagem. Sucediam-se as teses sobre o paradigma da comunicação. Paradoxalmente, os seus autores continuavam dando aula, reproduzindo práticas fósseis, incompatíveis com o paradigma que, teoricamente, haviam adotado.

As aceleradas mudanças sociais e a inovação tecnológica, face aos dados da pesquisa no campo da neurociência e da inteligência artificial, ou da sutil convergência entre a teoria da complexidade e a produção científica radicada no paradigma da comunicação, exigiam que se reconhecesse a necessidade de operar profundas e urgentes rupturas. 

Com referência ao paradigma da comunicação, a produção científica anunciava a aprendizagem centrada na relação. Mas, a Universidade e as escolas estiolavam em sala de aula, recriavam rituais sem sentido e de difícil erradicação.

Embora pareça inverosímil, era assim, antigamente. E eram raras as exceções à regra. Mas, nos idos de vinte e quatro, educadores como os da Educação Humanizada já faziam acontecer uma educação do século XXI.


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