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Japeri, 29 de junho de 2044

Quando Einstein palestrava, era frequente a pergunta:

“Você acredita em Deus?”

Einstein respondia:

“Eu acredito no Deus de Spinoza.

Quem não houvesse lido algo de Spinoza não entenderia a resposta. 

Baruch De Spinoza foi um filósofo holandês, descendente de portugueses. E o Deus de Spinoza lhe dizia: 

Pare de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim! Você está aqui, está vivo e este mundo está cheio de maravilhas.”

Por isso, Einstein e outros gênios se maravilhavam com o milagre da Vida. E contribuíam para que a vida de outros melhorasse. 

Tal como muitos outros inovadores, Einstein foi criativo, apesar da escola. Tal como Edison, que foi expulso da escola, e Picasso, que, precocemente, a abandonou, para que não fosse cerceado o espírito criativo. 

Esses essenciais seres humanos haviam saído da escola para cumprir o seu projeto de vida, porque as escolas desses tenebrosos tempos eram cemitérios de talentos. Bonsais humanos produzidos nesses antros de desumanização assassinaram milhões, em guerras e campos de concentração, lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, de nada valendo os apelos de Einstein.

Mas, por que estarei a falar-vos dessas tragédias? Talvez porque amigos meus me levaram a Portugal. Em Carnaxide, decorria um congresso de educação. E lá terei eu de vos explicar o que isso era… 

Congressos eram reuniões de variadas gentes, que, supostamente, evocariam Einstein e Spinoza, para buscar humanizar a Educação. Havia quem buscasse respostas para os seus questionamentos e escutassem doutores em educação bem-falantes, que lhes serviam erudição alheia, em power point, que os incautos ouvintes poderiam ler em casa, sem necessitar ouvir o blá, blá, blá das palestras.

Na Mesa do debate sobre “inovação e flexibilização curricular”, se sentaram quatro palestrantes. A Edilene foi brilhante na sua exposição. Descreveu o excelente projeto, que desenvolvia na Escola Aberta de São Paulo. 

O vosso avô enunciou critérios de reconhecimento de inovação e teceu algumas considerações sobre o polissémico conceito de currículo. 

Uma representante do ministério fez um discurso, que me transportou a cinquenta anos antes, quando palradores educacionais sofisticavam o discurso, para dizer o mesmo de sempre e ocultar a miséria das práticas. 

Finalmente, usou da palavra uma diretora de agrupamento.

Terei de vos explicar o que isso era. Por nunca explicadas plausíveis razões, o ministério tinha feito ajuntamentos de escolas e criado postos de comando nesses ajuntamentos. Diretores de agrupamento eram boas pessoas, mas, na sua maioria, distantes do chão das escolas. Controlados por títeres ministeriais, os diretores industriavam os “seus professores” na deturpação do espírito de bem-intencionados decretos e portarias, enfeitando as escolas com paliativos de um obsoleto modelo educacional.

Aconteceu que eu estava naqueles dias em que não se deve sair de casa… A diretora ladainhou práticas fósseis e atreveu-se a dizer já ter feito o que a Edilene fizera. Supliquei a Einstein e Spinoza que me concedessem o dom da paciência. Mas, os mais de cinquenta anos, que eu já levava de ouvir discursos mumificados, me impeliram a dizer à senhora diretora (com todo o respeito) que aquilo que ela dissera eram tretas. 

Imaginai a sua reação! Nunca mais me convidariam para aqueles rituais feitos de aparências de inovação. E da aparente flexibilização à rigidez curricular se transitava naquela altura. Mas, disso vos falarei em breve, se quiserdes que disso vos fale.


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