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Vila Wesley, 22 de junho de 2044

O episódio aqui descrito ocorreu no tempo do WhatsApp e do Facebook, que, há uns vinte anos, eram modos de as pessoas inventarem fofocas e conversarem sobre insignificâncias. 

Talvez já não vos recordeis desses apetrechos da era em que imperavam as chamadas tecnologias digitais de informação e comunicação. Estávamos no tempo das ditas “novas tecnologias”, mas, na verdade, eram tecnologias digitais rudimentares e, não raras vezes, utilizadas para manipular ou criar dependentes de ágeis polegares.

Recordo-me de te ver, querido Marcos, às voltas com sites de design, na Internet. E da Alice pesquisando numa plataforma digital disponibilizada pela faculdade de psicologia. Foi numa empresa de produção dessas plataformas que o episódio incluso nesta carta se desenrolou. O dono da empresa quis conversar comigo e foi até Cotia, à Escola do Projeto Âncora. Conversamos:

“Professor, você tem aqui um belo projeto. Trabalham com plataforma de ensino?”

“Não. Nós criamos uma plataforma, mas de aprendizagem” – respondi. 

“De aprendizagem? E essa plataforma tem o currículo todo, os conteúdos?”

“Não. Aqui, os jovens não consomem currículo. Eles constroem currículo, produzem conhecimento, a partir de projetos.”

“Que tipo de projetos os professores preparam para os alunos?”

“Não preparam. Constroem projetos com os seus educandos. Elaboram roteiros de estudo, acompanham a pesquisa, ajudam a criar evidências de aprendizagem, que, depois, eles partilham com os colegas.”

“E têm lousa digital nas salas de aula?”

“Não há salas de aula. Nem lousas digitais.”

“Como? Então…” – E a conversa ficou densa, carente de explicitação. 

Para a suavizar, perguntei:

“Quais são as vantagens de uma plataforma de ensino?”

“A vantagem é que os alunos podem escolher o que querem estudar.”

“Dá-me um exemplo, por favor.”

“Por exemplo, um aluno escolhe estudar raiz quadrada.”

“E por que razão ele escolhe estudar raiz quadrada nesse dia?”

Após alguns segundos, com ar de quem reflete, respondeu:

“Nunca tinha pensado nisso.”

Pois não… Naquele tempo, os alunos consumiam um currículo “pronto-a-vestir”, em plataformas digitais. Aulas previamente planejadas quase dispensavam o professor. 

Os pais queixavam-se de ver os filhos amarrados a computadores, esquecendo que, quando bebês, ao invés de chupeta, lhes tinham posto nas mãos um computador, para que se calassem. 

As “novas tecnologias” transformaram-se em panaceias do modelo escolar. Apenas serviam para o consumo acéfalo de conteúdo, na dependência de vínculos afetivos precários estabelecidos com identidades virtuais.

A Internet era generosa na oferta de informação. Tudo o que um professor pudesse ensinar estava disponível, de modo mais atraente, num computador. Os professores mantinham-se ancorados em práticas obsoletas, servidas em lousas digitais, ou replicando aulas congeladas no YouTube. O modo como utilizavam a Internet fomentava imbecilidade e solidão. As escolas tinham-se enfeitado de informação sem cuidar da comunicação, sem lograr desenvolver autonomia e senso crítico. 

Nesses recuados tempos, a democracia viveu tempos sombrios. A sociedade padecia de medo, egoísmo, fundamentalismos. A Escola Pública estava à mercê de interesses vis, subserviente, mercantilizada, 

Educadores atentos aperceberam-se da sua quota parte de responsabilidade. E, no início dos anos vinte, a crise cedeu lugar a novas práticas sociais. O espectro de novas inquisições se desvaneceu. Chegara o tempo de usar o digital ao serviço da humanização da Escola. 


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