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São Sebastião dos Ferreiros, 27 de julho de 2044

O amigo Rubem dizia que, se a universidade quisesse insistir na seleção de alunos, deveria substituir os “vestibulares” por algo mais rigoroso e justo: um sorteio. Com o sorteio, os inúteis e caros cursinhos desapareceriam. E o sorteio libertaria as escolas da escravidão aos padrões de conhecimento impostos pelos vestibulares, ficando livres para, verdadeiramente, educar. 

Para que saibais, o Enem era um exame nacional, um instrumento de avaliação falível, que, para além de não ser rigoroso, era, na sua essência, excludente. Para ilustrar o que afirmo, respigo um naco de texto do meu velho “Dicionário dos Absurdos da Educação”:

“A Adélia sabia a matéria na ponta da língua. Fizera a mnemónica das fórmulas e repetira ladainhas em voz rezada, na crença de que a memória a não traísse. Saiu vitoriosa da contenda travada com uma pilha de livros: fez a decoreba de todos, um por um. Mas acabou derrotada por uma... ampulheta. 

Abdicou da novela das sete e – supremo sacrifício! – o namorado foi-se, ao cabo da segunda semana de clausura. 

Quem diria que se deixaria intimidar por um diabólico aparelho de medir o tempo? Ingloriamente, a presença de uma ampulheta na sala de exame deitou por terra todo o investimento. 

Iniciada a prova e anunciado o tempo limite para a sua realização, a Adélia fixou um olhar de hipnotizada na areia que caía, caía, caía.... Bloqueou-se a mente, tolheram-se os movimentos. As folhas da prova ficaram em branco e humedecidas por lágrimas. 

Decorridos alguns dias sobre o drama, sobreveio uma desmesurada sudação, crises de choro, incontinência urinária. Nada que a competência dos médicos e alguns sedativos não conseguisse dissipar. 

Nesse tempo, já não era possível disfarçar a inutilidade dos exames, nem ocultar nefastos efeitos colaterais e perversões. 

Enquanto a Adélia me descrevia o seu drama, eu escutava-a atentamente, mas evocava outras situações absurdas em que as escolas de antigamente eram pródigas. 

Jornais dos idos de vinte deram notícia da primeira das pandemias e, à semelhança dos jornais do século XX, continuaram a publicar registos de uma interminável hecatombe escolar. 

O senhor ministro da educação afirmava não ver motivo para adiamento de exames. Mas, os senadores eram de opinião de que se deveria adiar essa prova, alegando que a falta de acesso à Internet prejudicaria mais os alunos da rede pública. O senhor ministro não se mostrou sensível à argumentação. E um senador comentou: 

O ministro não entendeu a gravidade da situação.” 

Não se poderia exigir de um ministro que entendesse alguma coisa do assunto. Mas, pelo menos, os senadores usaram de bom senso. E de bom senso usarei para convosco nesta carta, queridos netos. Bem como para com aqueles que clamam por mais exames e confundem mais exames com maior rigor na avaliação. 

Eu apresentei vários motivos. Mas, certamente, o ministro tinha mais que fazer do que ler os meus escritos. Reiterou a decisão de o Enem não ser adiado e disse que exame não tinha sido feito para corrigir injustiças.

Nisso estou de acordo com o ministro. Esse exame fora feito para gerar injustiça e se constituía em mero instrumento de darwinismo social. O Enem não colocava apenas jovens psicologicamente mais frágeis à beira de um ataque de nervos. Conforme estava concebido, não era apenas responsável por crises de sudação, choro e incontinência urinária. Mais do que um potencial descontrolador de esfíncteres, um exame era, em si mesmo, uma porcaria (eu ia escrever “bosta”, mas optei pelo eufemismo, para não ferir sensibilidades).


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