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Atibaia, 21 de agosto de 2044

Há uns vinte anos, a humanidade começou a entender a dimensão de um ecocídio. Nevava no deserto, fazia calor na Sibéria. O fogo dizimava a floresta amazônica e a australiana. O velho modelo educacional seria causa primordial da previsível extinção da espécie?

As tecnologias digitais de informação e comunicação constituíam-se em novas panaceias, que prolongavam a agonia de sucedâneos do modelo educacional lancasteriano, que Bolívar e Santander tinham introduzido na América Latina, há duzentos anos. Aulas híbridas ou invertidas, lousas digitais e power point disfarçavam o drama educacional. Foi por essa altura, que um estudo realizado numa universidade australiana concluiu que utilizar um auxílio visual igual ao que estava sendo falado, ao contrário do que se imaginava, não facilitava a compreensão. 

Outro estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Harvard, afirmava que não havia um propósito de existência do power point. Isso, porque eles descobriram que o grau de satisfação de uma audiência para com uma apresentação era o mesmo, independentemente da presença, ou não, de auxílio visual. 

Os autores desse estudo também observaram que o editor de apresentações poderia estar contribuindo para tornar as pessoas mais ignorantes. A facilidade do auxílio visual de gráficos, listas e slides tinha ajudado a promover um novo tipo de gramática corporativa, onde o importante não era passar uma informação correta, mas passar uma informação com estilo. 

Propostas com lógica sofista, informações sem contexto e que se apegavam na causalidade de fatores eram cada vez mais comuns. Essa argumentação, onde o modo como se falava era mais importante do que o conteúdo da fala, estava a deixar as pessoas cada vez menos inteligentes... e a humanidade perto da catástrofe.

Nas mentirosas “boas escolas” de iniciativa particular, onde o direito à educação se convertia em mercadoria, as novas tecnologias assumiam-se como diferencial de mercado. Na ânsia de deter a queda da taxa de evasão e para melhorar a captação de alunos, gestores recorriam a “consultorias”, não para melhorar as suas práticas, mas para atrair clientes, captar alunos. 

O drama se repetia nas escolas ditas “públicas” da rede pública. Uma secretaria de educação decidiu abrir concurso e acolher propostas de empresas especializadas em “mecanismos para motivar o aluno e em ferramentas para melhorar a gestão escolar, com o objetivo de aumentar a aprovação”. 

O secretário da educação assim justificava a medida: 

A educação está anacrônica. O jovem pressente isso e foge.” 

Mas, o zeloso secretário insistia em “anacrônicas” medidas de política educacional, no desperdício de recursos e de gente num genocídio educacional anunciador de um genocídio mais vasto. 

Com novas tecnologias, ou sem elas, num tempo em que tais equívocos e disparates ocorriam, uma corajosa Janaína e o seu companheiro Ricardo dinamizavam o 13º ENARC e inspiravam educadores como a Eulália do “Projeto Rosende”. 

Num vídeo de 2016, a Eulália assim se se manifestava: 

Eu já não concordava com o modelo tradicional, há muito tempo. E chegou uma hora em que eu já não estava aguentando mais. Eu estava me sentindo mal, eu via os professores se sentindo mal, eu estava, realmente, ficando doente. E eu disse: ou eu me aposento, ou eu mudo o que está aí. Se não, vou ficar louca.”

Vinte anos atrás, este e outros projetos eram prova de que nem tudo estava perdido. Tinha início a regeneração do Sistema e a humanização da Educação, no contexto de novas construções sociais de aprendizagem.



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