Pular para o conteúdo principal

Brasília, 31 de agosto de 2044

Certamente, estareis recordados de vos ter falado de um empresário que queria “salvar vidas de jovens”. Dizia ele que a escola da aula os matava e que fazer contraturno de escola era como tentar “enxugar gelo”. 

Pediu-me para “fazer uma escola como a Escola da Ponte”. Nunca quis fazer no Brasil uma escola igual à da Ponte, mas aceitei cumprir o desejo de um bom homem que, minado por um câncer, morreria, poucos meses depois. Com a Edilene, a Claudia e uma extraordinária equipe de educadores, ajudei uma ONG a libertar-se do assistencialismo e a fundar a Escola do Projeto Âncora. Dei a essa escola quatro anos de vida gratuita. E, em 2014, ela foi considerada por curadorias internacionais como uma das melhores escolas do século XXI.

Quando, em 2014, fui convidado pelo IBICT para coordenar uma pesquisa, no âmbito do projeto “Brasília 2060”, e para integrar o Grupo de Trabalho da Criatividade e Inovação do Ministério da Educação, passei a viajar, frequentemente, para a capital. Voltei ao convívio de educadores, que tentavam “salvar vidas”. Colaborei com a “Vivendo e Aprendendo” e com a EC 115 norte, admiravelmente dirigida pelas minhas amigas Marta Caldas e Martha Scardua. Com a Cláudia, que também queria “salvar vidas de jovens”, realizei a primeira formação “Gaia Escola”. Fiz morada junto ao Jardim Botânico de Brasília, para ajudar a criar comunidades de aprendizagem. 

Em meados de janeiro de 2015, o Secretário Estadual de Educação, me pediu para com ele reunir. No início da reunião, comentou:

“Desde que assumi o cargo de secretário, já fiz muitas reuniões. Esta é a primeira em que nesta secretaria de educação se fala de… educação”.

Tal como o empresário Walter, o Júlio secretário também queria salvar vidas de jovens. Levou-me a visitar a ala dos jovens infratores da prisão da Papuda. O que por lá vi me impeliu a ajudá-lo. A partir da iniciativa de professoras do CEF 04, um projeto de comunidade começou a tomar forma junto ao conjunto habitacional do Paranoá Parque. 

Entregamos à secretaria o Projeto, o Regimento e uma minuta de Termo de Autonomia. Após encontros com a Coordenação Regional, foi publicada a portaria de criação da CAP – Escola Classe/Comunidade de Aprendizagem do Paranoá.

Na esteira dessa iniciativa, outros projetos surgiram, por obra de extraordinários educadores. E todos foram descaraterizados, assimilados pelo Sistema, destruídos. 

Compreendemos ser impossível salvar vidas de jovens, assegurar a todos o direito à Educação, quando estávamos dependentes de decisões de um sistema moral, intelectual e economicamente corrupto – as regras do jogo estavam viciadas.

Durante sete anos, corrigimos erros e preparamos um Plano de Inovação, que desenvolvemos a partir de setembro de 2024. Era este o seu preâmbulo:

“Os projetos humanos contemporâneos carecem de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver. Se a modernidade tende a remeter-nos para uma ética individualista, nunca será demais falar de convivência e diálogo, enquanto condições de aprendizagem promotora de desenvolvimento humano sustentável.

A educação acontece na convivência, de maneira recíproca entre os que convivem. A partir da sala de aula e daquilo que somos, do que sabemos e do que sabemos fazer, urge afirmar a possibilidade de conceber uma nova construção social de aprendizagem, na qual, efetivamente, se concretize uma educação integral – urge humanizar a Educação.”

Em 2024, centenas de educadores deram início à regeneração do Sistema e à humanização do ato de educar. 


Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...