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Campos de Goytacazes, 22 de agosto de 2044

No tempo em que o vosso avô tinha a idade que agora tendes, um pássaro livre chamado Camus disse que as grandes ideias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Para que nos apercebamos da sua presença, basta sermos capazes de escutar, no meio ao estrépito de impérios e nações, o suave acordar da vida e da esperança. 

A Hilda era um daqueles seres imprescindíveis, que nos faziam “acordar”. Lutou, toda uma vida, uma luta pacífica, mas determinada. Estava já perto das suas noventa primaveras e não desistia de porfiar por uma escola de crianças felizes. 

Poderá parecer estranho que eu recorra a uma metáfora futebolística, para vos falar desses maravilhosos seres humanos, mas ela se ajusta perfeitamente ao que vos quero contar. 

Talvez vos recordeis desse desporto de multidões muito em voga nessa época, quando um português que usava o nome do filho de Deus aportou ao Brasil, para ser treinador do Flamengo. Pois, há uns exatos vinte anos, eu ia descendo a Serra das Araras, viajando para Campos, passando pelo Rio. O rádio do carro transmitia a final da Libertadores. O Flamengo perdia por um a zero e o jogo aproximava-se do fim, quando, em duas rápidas incursões, Gabigol apontou dois golos, que deram a vitória ao Mengão. 

A loucura invadiu as ruas do Rio, no exato momento em que o vosso avô por lá passava: foguetório, gargalhadas, choro feliz, o povo na rua, apesar da intensa chuva. Aproveitei para olhar a televisão e vos digo o que vi. Nesses primitivos tempos, o futebol era um fenômeno de massas, o panis et circencis usado pelos políticos, para se tornarem populares, serem adulados, ganhar eleições. Porém, nesse dia de novembro, até os poderosos se ajoelharam (literalmente!) na grama e beijaram a mão de Gabigol. 

Para as crianças desse tempo, Gabigol era um Ídolo. Mas, seria necessário mostrar-lhes que os seus golos eram fruto de um trabalho de equipe. Isso sabia a Hilda: que um projeto humano é um ato coletivo. E, num saudável e fraterno companheirismo, protegia o seu colégio de quem nele impunha muros. Se um político se ajoelhou e beijou a mão de um jogador de futebol, as gentes de Campos deveriam beijar as mãos da minha amiga Hilda, como preito de gratidão. 

Quando éreis crianças, contei-vos histórias de pássaros. Creio que, já adultos, acolhereis as mesmas histórias sob a forma de gente. Se alguma ave-do-paraíso existisse, na sua humildade e amorosidade, a Hilda seria a sua tradução entre mortais. Se um paraíso houvesse, o colégio da Hilda o seria, revelando a imortalidade dos gestos de ternura. 

O seu sonho se consumou, quando já nada se esperaria, quando a Melissa, coordenando o projeto da Região dos Lagos, foi ajudar a Hilda a realizar o seu sonho. Os educadores românticos não paravam de conspirar (“inspirar com”), transformando em ato um “credo” redigido e assumido no já distante dois mil e quatro em que nos dizia:

“Os projetos humanos contemporâneos carecem de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver. Requerem que abandonemos estereótipos e preconceitos. Exigem que se transforme uma escola obsoleta numa escola que a todos e a cada qual dê oportunidades de ser e de aprender – que a todos assegure o direito à educação.”

Amorosamente conspirando, pacificamente agindo, resolutamente, regenerando um Sistema, humanizando a Educação, os Românticos Conspiradores provaram que tudo ainda seria possível. 

O mestre Lauro escreveu que tudo está fluindo, que estamos em permanente reconstrução e que liberdade é o direito de transformar-se, de transformar.


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