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Espírito Santo do Turvo, 30 de agosto de 2044

Querida Alice, no dia do teu quadragésimo terceiro aniversário, te parabenizo e evoco peripécias do tempo em que nasceste.

A Ponte era visitada por educadores de todo o tipo. Havia aqueles que entravam num qualquer espaço respeitando o silêncio de estudo que nele reinava e aqueles que atendiam celular em altos brados, dentro das salas. Havia quem tomasse anotações ou copiasse dispositivos e também havia quem os furtasse. Muitas vezes escutei queixas de alunos:

“Professor Zé, levaram o meu plano do dia!”

“Professor Zé, desapareceu da parede o “Acho Ruim” e o “Preciso de Ajuda”!”

Muitos teoricistas parasitavam a Ponte, recolhendo dados para “estudos” e publicavam livros com materiais e dispositivos por nós criados, como se fossem da sua autoria. 

Quando visitei uma escola norte-americana, a professora disse ter inventado um “inovador” dispositivo: “I need help” / “I can help” – quarenta anos após a Ponte ter introduzido esses dispositivos na prática corrente, os norte-americanos os “reinventavam”. Foram dispositivos úteis no contexto de uma prática de aprendizagem centrada no aluno, mas, em outros contextos, se transformaram em paliativos.

No início da carreira de professor, também contribuí para os produzir, sem perceber que o estava fazendo. Trabalhei na educação de adultos, compus uma equipe de educação especial, pratiquei individualização e personalização da aprendizagem, empreendorismo, meditação, desenvolvi um P.E.I., “inverti a aula”… No início da década de setenta, eu seria aquilo que, em política, se designa por “idiota útil”. Sem que o soubesse, eu me juntava a causas que considerava humanizadoras, mas que apenas contribuíam para disfarçar a miséria das práticas instrucionistas.

Muito tarde, mas ainda a tempo, compreendi a razão de ser das homenagens e premiações conferidas à Ponte, nos anos noventa. E, quando ousei questionar atitudes prepotentes, quando formalizei perguntas a que ninguém conseguiu dar resposta, de objeto de curiosidade a Ponte passou a ser um incómodo. 

Seguiu-se um período em que fomos vítimas de tentativas de assassinato de caráter. Até que a Ponte foi descaraterizada, quase se perdeu. O que aconteceu na Ponte, entre 2004 e 2012, foi para mim “um sinal de alarme”. 

Uma dúzia de anos de observação de práticas com potencial inovador e de intensa reflexão, prepararam a minha “retirada de cena”. Nunca acreditei em “seres providenciais” e escapei à influência de “gurus pedagógicos”. Nos idos de vinte e quatro, depositei nas mãos das redes de comunidades o trabalho futuro, que deveria ser obra de coletivos. 

Num primeiro momento, aconteceu Mudança. Um primeiro ciclo formativo decorreu entre setembro e dezembro desse já distante ano – demos-lhe a designação de “Escola da Ponte no Brasil” e de “Refazer a Ponte em Portugal”. Seguiu-se um período de introdução de efetivas inovações, transformando aulas de “filosofia para crianças”, aulas de desenvolvimento sócio emocional e de preparação para a cidadania, salas de “cultura maker” e outros paliativos em atividades transversais e quotidianas… sem sala de aula.

Em 2025, deixamos de pedir o cumprimento da lei, passamos a exigir o cumprimento do direito à educação. Contribuí com a proposta de um possível caminho, para que o refizessem de diferentes modos. Já dispúnhamos de arcabouço e andaimes, de uma base de regeneração e humanização do sistema, do esboço de uma nova construção social de aprendizagem e de educação. 

Amanhã, vos darei a conhecer as bases do nosso “Plano de Inovação”. 


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