“Voltei muito abastecida para enfrentar com amor as nossas dificuldades. Revi pessoas queridas, conheci pessoas que exalam generosidade em estado puro.”
Mas, o dia seguinte ao do fim do encontro dos RC, o amigo Conrado desabafava:
“Hoje tive um dos dias mais desafiadores da minha vida na escola. Não fossem esses dias da semana passada e eu não saberia mensurar o desfecho, mas ouso dizer que, na melhor das hipóteses, desistiria da educação.
Gratidão eterna à essa rede e a cada um que ancora em si um nodo dela.”
Acordavamos para as más notícias, ainda que a energia acumulada no encontro servisse de lenitivo. E a mensagem recebida do meu amigo me fez regressar a um mês de maio em que a América Latina passara a ser o epicentro da pandemia.
A interrupção de serviços sociais contribuía para o agravamento da pobreza. O fecho dos prédios das escolas, aliado à prática da ensinagem, criava situações de abandono intelectual dos alunos.
Com a amorosidade que os caracterizava, muitos Românticos Conspiradores se angustiavam, por não conseguirem estabelecer contato com alunos que não tinham acesso a uma Internet, que lhes permitisse receber as aulas online. E percebiam que, cumprindo ordens da administração escolar, votando ao abandono os restantes, contribuíam para acentuar o fosso da desigualdade social.
Numa entrega admirável e à margem das inúteis iniciativas da administração, dedicados professores conseguiam estabelecer contato com todos os alunos (sublinho: com todos!). A partir daí, foram criados vínculos e construídos roteiros de estudo, que conduziram a processos de auto-formação em comunidade. Acontecia aprendizagem sem sala de aula física ou virtual.
Identificadas necessidades e problemas das comunidades (fome, insalubridade e múltiplas chagas sociais), os professores ajudavam a desenvolver soluções, de modo autônomo, sustentável.
Perguntareis: Como faziam isso? Como conseguiam chegar a todos os alunos? Como conseguiam esses professores garantir a todos o direito à educação? As respostas estavam inscritas num projeto entregue à Adminstração do Sistema e que a Administração votou ao ostracismo e quase conseguiu destruir.
Naquele tempo, o autor do livro “Necropolítica” nos dizia:
“A expressão máxima da soberania reside no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Ser soberano é definir a vida como a implantação e manifestação de poder. Logo, neste sentido, a soberania é a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é”.
A Administração escolheu quem poderia continuar a receber aula e quem ficaria abandonado à sua sorte. Não conseguia alcançar sequer metade dos alunos e legitimava a crueldade do abandono com uma ridícula proposta de “gestão estratégica”.
Os autores do documento admitiam ser aquela "uma oportunidade de pensar outras práticas pedagógicas em outros espaços, com o fim de aperfeiçoar o processo de ensino e aprendizagem". Mas a “oportunidade” de perdeu. As últimas linhas do documento disso eram prova:
“As atividades ofertadas devem ser centradas nos estudantes.” – Isto é: a administração assumia (na teoria) que o centro deveria ser o aluno, mas impunha (na prática) aulas centradas no professor.
Escrever uma coisa e fazer outra seria sintoma de esquizofrenia? Ou manifestação concreta de corrupção moral e intelectual?
