Quando algum aluno não estava contatável, a direção enviava uma carta registada com aviso de recepção ao respetivo encarregado de educação. Acaso a carta fosse devolvida, uma informação seria enviada às autoridades competentes, para que a família fosse questionada. Era admirável o zelo legalista dos guardiães de um obsoleto modelo da ensinagem. E indisfarçável o seu autoritarismo.
Durante a primeira das pandemias, eu admirava o esforço dos professores, procurando não perder o contato com os seus alunos. Mas havia quem obrigasse os alunos a vestir uniforme, durante as aulas virtuais. Outros “marcavam falta” a quem desligasse o computador. Havia, também, quem fizesse a “chamada”, ou estabelecesse um horário para os alunos irem ao banheiro. Essas arrogantes e ridículas atitudes eram resultado do cumprimento do “dever de obediência hierárquica”.
Durante mais de cinquenta anos, lidei com os ditos “superiores”. Para perceberdes a estirpe das criaturas, vos descrevo uma situação vivida, quando da apresentação pública de um projeto, que viria a ser considerado um dos mais inovadores do século XXI.
Os “superiores hierárquicos” disseram não entender o que estavam a ouvir e lamentaram-se das canseiras, que lhes “consumiam as horas e lhes desgastavam os nervos”.
Foi-lhes dito que as novas práticas reduziriam a carga burocrática, origem dos seus queixumes. Reagiram com agressividade:
Era só o que faltava! O que você está a dizer é um absurdo! Onde já se viu? Uma escola tem de ter salas de aula, turmas. Sempre foi assim! E os professores têm de fazer o registo diário das aulas que deram e da matéria ensinada.
Sensíveis e pacientes, os educadores foram dizendo que nem “sempre foi assim” e que não seria necessário argumentar a legalidade da proposta, pois estava alicerçada na lei e numa ciência prudente. Quem teria de provar não ser possível a mudança seria quem usava de legalismo, para a impedir.
O que querem dizer com isso? – retorquiram.
Respeitosamente, os professores explicaram que, na Lei, nada obstava a que o projeto se concretizasse. E, pela enésima vez perguntaram: “O que impede?”
Tentando disfarçar tiques autoritários e sem saber o que responder, em tom de ameaça, os zelosos funcionários determinaram:
“É o fim do mundo! É assim, porque terá de ser assim! Não mudaremos uma linha dos regulamentos, nem uma vírgula! E não se esqueçam de que nos devem obediência!”
Os professores compreendiam que, impedindo a mudança, a Administração agia à margem da lei, mas pouco ou mesmo nada poderiam fazer, perante prepotentes atos administrativos. Naquele tempo, muitos professores tendiam a interiorizar o autoritarismo dos “superiores hierárquicos”. Diziam-se “servidores”, mas eram meros serviçais. E, com medo de perder o emprego, subordinados e serviçais abandonavam os seus projetos.
Um “Sistema” que semeara ignorância e múltiplas violências já não mereceria o benefício da dúvida. Na era da pós-verdade e do colapso do Sistema de Ensino, tomava forma um Sistema de Aprendizagem inspirado na proposta de “aprendizagem autoral” do amigo Pedro Demo. Era uma proposta que requeria a “recriação do formato escolar, outro professor, outra pedagogia”.
Não era “o fim do mundo” – como disseram os “superiores” – era apenas o princípio.
