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Ingá, 19 de agosto de 2044

Talvez estejais recordados de vos ter falado da ameaça recebida pelo pai de uma aluna. Um professor reencaminhara “algumas palavras da subdiretora”, relembrando que “os alunos eram obrigados ao cumprimento das atividades propostas para as sessões síncronas e assíncronas”. 

Quando algum aluno não estava contatável, a direção enviava uma carta registada com aviso de recepção ao respetivo encarregado de educação. Acaso a carta fosse devolvida, uma informação seria enviada às autoridades competentes, para que a família fosse questionada. Era admirável o zelo legalista dos guardiães de um obsoleto modelo da ensinagem. E indisfarçável o seu autoritarismo. 

Durante a primeira das pandemias, eu admirava o esforço dos professores, procurando não perder o contato com os seus alunos. Mas havia quem obrigasse os alunos a vestir uniforme, durante as aulas virtuais. Outros “marcavam falta” a quem desligasse o computador. Havia, também, quem fizesse a “chamada”, ou estabelecesse um horário para os alunos irem ao banheiro. Essas arrogantes e ridículas atitudes eram resultado do cumprimento do “dever de obediência hierárquica”. 

Durante mais de cinquenta anos, lidei com os ditos “superiores”. Para perceberdes a estirpe das criaturas, vos descrevo uma situação vivida, quando da apresentação pública de um projeto, que viria a ser considerado um dos mais inovadores do século XXI. 

Os “superiores hierárquicos” disseram não entender o que estavam a ouvir e lamentaram-se das canseiras, que lhes “consumiam as horas e lhes desgastavam os nervos”

Foi-lhes dito que as novas práticas reduziriam a carga burocrática, origem dos seus queixumes. Reagiram com agressividade:

Era só o que faltava! O que você está a dizer é um absurdo! Onde já se viu? Uma escola tem de ter salas de aula, turmas. Sempre foi assim! E os professores têm de fazer o registo diário das aulas que deram e da matéria ensinada.

Sensíveis e pacientes, os educadores foram dizendo que nem “sempre foi assim” e que não seria necessário argumentar a legalidade da proposta, pois estava alicerçada na lei e numa ciência prudente. Quem teria de provar não ser possível a mudança seria quem usava de legalismo, para a impedir. 

O que querem dizer com isso? – retorquiram.

Respeitosamente, os professores explicaram que, na Lei, nada obstava a que o projeto se concretizasse. E, pela enésima vez perguntaram: “O que impede?”

Tentando disfarçar tiques autoritários e sem saber o que responder, em tom de ameaça, os zelosos funcionários determinaram: 

“É o fim do mundo! É assim, porque terá de ser assim! Não mudaremos uma linha dos regulamentos, nem uma vírgula! E não se esqueçam de que nos devem obediência!” 

Os professores compreendiam que, impedindo a mudança, a Administração agia à margem da lei, mas pouco ou mesmo nada poderiam fazer, perante prepotentes atos administrativos. Naquele tempo, muitos professores tendiam a interiorizar o autoritarismo dos “superiores hierárquicos”. Diziam-se “servidores”, mas eram meros serviçais. E, com medo de perder o emprego, subordinados e serviçais abandonavam os seus projetos. 

Um “Sistema” que semeara ignorância e múltiplas violências já não mereceria o benefício da dúvida. Na era da pós-verdade e do colapso do Sistema de Ensino, tomava forma um Sistema de Aprendizagem inspirado na proposta de “aprendizagem autoral” do amigo Pedro Demo. Era uma proposta que requeria a “recriação do formato escolar, outro professor, outra pedagogia”. 

Não era “o fim do mundo” – como disseram os “superiores” – era apenas o princípio.


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