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Itaipuaçu, 29 de agosto de 2044

Queridos netos, ficastes surpreendidos, quando referi uma das caraterísticas do Sistema: a corrupção moral, intelectual e económica. Sabeis que não gosto de falar do “vil metal”, mas a isso me vejo obrigado, para ficardes a saber que não vos menti. 

Recebi muitas mensagens como esta:

“Escrevo este e-mail para lhe agradecer o presente que são as “Cartas para Alice”. Quando comentei com algumas “gaivotas” que conheço que havia recebido as cartas, elas me pediram cópias e eu não as dei, presente não se dá a ninguém. Então, pediram-me que as mostrasse. 

Li para elas uma carta. Você precisava ver como ficaram emocionadas. Pediram que eu lesse as outras. A certa altura, me apercebi de que tinham começado a trabalhar como na Escola da Ponte.

As crianças, as famílias e os professores se sentiam mais felizes. As crianças aprendiam mais e melhor. Mas, agora, vejo essas professoras desesperadas. Não conseguem manter os projetos. Pagam do seu bolso os materiais, a merenda das crianças, estão desistindo…”

Ao reler este naco de prosa, senti uma forte perturbação. Essas e outras “gaivotas” tinham iniciado projetos inspirados na Ponte. Com amorosidade e extremo desvelo tinham cuidado de crianças e educadores, criado um modo de a todos garantir o direito à Educação. Porém, à semelhança de outras “gaivotas”, viram o seu sonho desfeito. 

Uma das causas da destruição dos projetos era a alocação ineficiente de recursos, o uso indevido do erário público, e a ausência de financiamento privado em verdadeiras inovações. No agosto de vinte e quatro, muitos projetos de mudança corriam risco de desaparecimento por falta de… dinheiro. 

Deveríamos pedir contas, perguntar pelos resultados, reclamar evidências do impacto do investimento feito em educação, ao longo de mais de meio século.

Cadê os efeitos de projetos, programas, de um sem conta de pesquisas, relatórios, consultorias, de conferências e mais conferências, seminários, congressos e ações de formação? Cadê a mudança celebrada em teses, papers, em inúmeros inúteis estudos? Cadê o retorno do investimento em milhares de contratos com empresas fornecedoras de paliativos e falsidades? E o do pagamento a “especialistas”, consultores, a uma multidão de doutores, pós-DOC, ph-deuses e nas mordomias dos áulicos? 

Foi enorme o desperdício do erário público em bolsas e em gastos com viagens a lugares e projetos (às estrangeiras finlândias e aos domésticos sobrais, por exemplo) que em nada contribuíram para a melhoria da qualidade da Educação. 

Poderíamos concluir que as fortunas gastas tenham sido “investimento a fundo perdido”? Era essa a designação que se dava, quando o Governo, pessoas, ou instituições privadas davam dinheiro sem que fosse necessária a devolução do recurso. 

O IDEB de 2024 era igual ou inferior ao da década de noventa. Os falsos IDEB (índices de “decoreba”, que não de “desenvolvimento da educação”) deveriam fazer corar de vergonha quem os fabricava. Os contribuintes tinham sido fraudados, roubados. E milhões de seres humanos deveriam ser Indenizados, por terem sido privados do direito à Educação.

Em 2024, um pequeno grupo de empresários se juntaram num círculo de financiamento coletivo e ajudaram a criar o primeiro projeto de protótipo de comunidade de aprendizagem – havia um lado saudável na iniciativa privada. Hei-de trazer ao vosso conhecimento os seus nomes, não por terem sido os primeiros, mas por terem tomada uma decisão ética e acreditado que as suas doações obteriam retorno, não só económico, mas (principalmente) humanizador.


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