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Morada das Águias, 28 de agosto de 2044

Queridos netos, acontecimentos felizes marcaram o ano de 1976: o nascimento do vosso pai e a chegada do vosso avô à Escola da Ponte. Com outros pais, assumi a decisão ética de mudar de prática, preparei a escola que o meu filho e os ditosos filhos de outros pais mereciam: um tempo e um lugar onde pudessem ser crianças sábias e pessoas mais felizes. 

No início deste século, a minha preocupação era com aquilo que vos esperaria, quando chegasse o tempo de ir à escola. Acreditava nos professores e confiava que vos ajudassem a aprender a gramática de tempos que seriam os vossos e que, certamente, nós já não iríamos viver. A minha apreensão se desvaneceu, quando soube que a escola que vos acolheu era a de um professor de matemática e ex-aluno da Ponte: o vosso pai. Com imenso desvelo ele vos cuidou. 

Entretanto, conheci uma Maria exímia contadora de estórias. No seu tempo de juventude, lia e relia contos de fadas e romances policiais. O seu pai não aprovava tais leituras, porque as considerava perda de tempo. Mas, a irreverência da jovem vestira-a de uma prodigiosa imaginação e ela me presenteava com deliciosos diálogos de mãe e filha:

“Mãe, quem faz as moléculas?

Os átomos, filha. E eles são menores do que as moléculas.

Mãe, como você me fez, se é maior do que eu?”

Libertar as ideias afaga a criatividade e tem o condão de reforçar o pensamento divergente, que nos protege de certezas certas. Libertamo-nos de peias, quando interrogamos o mundo, vendo cada manhã nas cores da primeira madrugada.

No ventre de uma Maria me gestei. Os braços dessa Maria me embalaram. Nos meus braços, essa Maria exalou o último suspiro. Se uma morte prematura me não deixou expressar-lhe quanto Amor por ela sentia, ou se mais Amor não vos dei no tempo certo, agora me redimo. Falar-vos-ei, novamente, em nome de todas as Marias, que, amorosamente e em perturbados tempos, se deram a utópicas tentativas de dar sentido ao ato de educar. 

Quero que saibais que havia pessoas assim, gente com a coragem que é preciso ter, para acolher e cuidar de órfãos de afeto e desamparados do aprender. No início do projeto de Maricá, outra Maria eu conheci. Começou a construção de uma casa,alimentando o sonho de viver contemplando o nascer e o pôr do sol na lagoa. O sonho foi adiado, por força de termos sofrido pequenas e grandes traições, que causaram a suspensão de um projeto, que era legalmente e cientificamente sustentável, mas carecia de sustentabilidade financeira. 

A Maria se instalou num ceticismo radical. Mesmo quando amigos empresários se juntaram num círculo de financiamento e eu lhe apresentei um “caminho das pedras”, um dos muitos possíveis e que tinha sido testado, a Maria se manteve crítica, pessimista. Como era uma boa amiga e sábia conselheira, o seu ceticismo foi-me útil, ajudou-me a contornar obstáculos e a mitigar prementes saudades do futuro. 

Nas próximas cartinhas, irei transcrever excertos dos documentos enviados às redes de comunidades e aos círculos de estudos constituídos no agosto de vinte e quatro.  Pouco a pouco, o ceticismo da Maria deu lugar a uma esperança reservada – a Maria desistiu de desistir.

Eu dissera à Alice que aquilo que é predito é da natureza das coisas inertes. Se não existe pensamento divergente, confundimos a semente com o gesto. Porque tudo o que é previsível estiola e a vida – um constante recomeço, sem princípio nem fim – requer que saibamos gerir a imprevisibilidade. Como diria o Pablo: 

“Eu estou sempre a renascer. Cada nova manhã é o momento de recomeçar a viver, uma maneira de retomar o contacto com o mistério da vida.”

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#Educação #JosePacheco #ComunidadesdeAprendizagem


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