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Terras de Entre-ambos-os Aves, 26 de agosto de 2044

No artigo de que ontem vos falei, o amigo José Alves fazia referência a três livros: “Nova Organização Pedagógica da Escola Pública. Caminhos de possibilidades, da autoria de João Formosinho, José Verdasca e dele mesmo, no qual se explicitavam os modos alternativos de organização das aprendizagens; a obra “Promoção do sucesso educativo – estratégias de inclusão, inovação e melhoria e um “Ensaio de resgaste do labirinto escolar inserido nesta mesma publicação”.

Dissera o amigo José que essas e outras publicações tinham “tornado claros os caminhos para a necessária metamorfose e ilustrado os modos concretos de o fazer” – era engano de alma ledo e cego! Era teoricismo, que a fortuna não deixou durar muito. Num despacho datado de agosto de 2024, o Ministério da Educação reconhecia “a excessiva rigidez e uniformidade do sistema” e procurava instituir uma segunda edição dos “Projetos Piloto de Inovação Pedagógica”. Se a primeira edição fora um fiasco, a segunda iria pelo mesmo caminho. 

O José saudava “a lucidez da visão, particularmente manifesta na criação de uma área curricular designada "Projeto Pessoal" e no incremento de muito maior flexibilidade e liberdade de aprender” - novo engano de alma ledo e cego!

Os teóricos de serviço apoiavam esse tipo de iniciativas. Com essa atitude comprometiam a Mudança e a Inovação. Legitimando “cientificamente” a introdução de paliativos num Sistema sem sustentabilidade científica, contribuíam para a manutenção da mesmice.

No despacho de agosto, eram “sinalizadas três dimensões” e apontadas causas estruturais, que “persistiam em larga medida”. Supostamente (só teoricamente, claro!) as políticas e as práticas educativas adotadas pelas escolas e pela administração central e local contribuíram fortemente para uma redução expressiva dos indicadores, havendo a “possibilidade de organizar, de facto, a escola para gerar um sucesso plural para todos”. Mais uma vez, “a montanha paria um rato”. 

A “possibilidade da regeneração de outras práticas de escolarização” passava, no entender dos teoricistas por trabalhar simultaneamente as seguintes “variáveis da organização escolar”:

Um currículo mais flexível que pudesse responder à diversidade das pessoas (dos alunos) – no entender dos teoricistas, os órgãos das escolas deveriam ter “a liberdade e o poder de organizar o currículo adotando o menu da oferta às necessidades dos alunos e dos contextos”.

Dever-se-ia adotar “um modo diverso de agrupar os alunos, não segundo a grade [a prisão] do ano de escolaridade e da turma, mas seguindo os níveis de proficiência dos estudantes” (sic).

Criar condições efetivas para a organização e funcionamento de equipas educativas.

Valorizar uma prática avaliativa mais focada na promoção das aprendizagens dos alunos do que na classificação e na seleção”.

“Uma gestão de tempos e de espaços” que escapassem às lógicas da “cadeia de montagem” e da segmentação que faziam das escolas “mundos partidos, de isolamento e solidão”;

Os teoricistas tinham fraca memória ou ostracizavam um projeto que concretizara todas essas dimensões – o projeto Fazer a Ponte. Tudo aquilo que apontavam como necessário já fora realizado, há quase meio século, numa escolinha do norte de Portugal.

No agosto de 2024, o vosso avô enviou a professores e a teóricos éticos um conjunto de documentos fundadores de uma nova construção social – no dia em que a Mãe Luíza faria 97 anos, avivei a memória de quem, diretamente, ou teoricamente, contribuiu para a sua morte precoce.