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Ubatiba, 25 de agosto de 2044

Vai para uns vinte anos, o amigo (e insigne académico) José publicava no jornal “O Público” uma crónica com o sugestivo título de “Escola organizada para o insucesso educativo – a lenta evolução de uma prática”:

“A escola está organizada para produzir o insucesso educativo. Esta foi a tese defendida por João Formosinho com um alargado conjunto de argumentos, numa conferência proferida em 1987, no âmbito da Comissão Reforma do Sistema Educativo criada pelo ministro João de Deus Pinheiro (1986) e que conviveu com o tempo da conhecida reforma de Roberto Carneiro (1987-1991).

Esta tese gerou polémica, tendo até gerado a mudança de título (de insucesso para sucesso). Mas a demonstração era irrefutável. As causas estruturais desta produção reportavam-se às três funções básicas da escola (instruir, socializar e estimular as jovens gerações) e tinham a ver, em síntese, com o “modelo curricular único e pronto a vestir”, a pedagogia da impessoalidade e da transmissão, o comando e o controlo centralizado, a funcionarização dos professores, o predomínio de uma instrução que ignorava a emoção e a socialização, a desterritorialização das escolas. 

Estes argumentos ganhavam consistência com as taxas altíssimas de abandono escolar (mais de 50%) e de retenção e desistência (na década de 80 e 90 do século XX com valores médios a rondar os 20%). A escola para todos não era, de facto, para todos e servia, sobretudo, as elites.”

Encontrei essa crónica no fundo do baú das velharias e dela respigarei mais alguns excertos, na cartinha, que vos enviarei, amanhã, para que vejais o modo como os teoricistas da época repetiram aquilo que anteriores teoricistas escreveram, ao longo de mais de um século de agonia do velho sistema. 

Em 1987 e nos anos seguintes, acompanhei o excelente trabalho realizado pelo amigo João Formosinho na Comissão da Reforma do Sistema Educativo. 

Netos queridos, por que vos conto estas peripécias? Eu havia participado nos trabalhos que desembocaram na redação da Lei de Bases. No mesmo anos, fui eleito coordenador do Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Educativo em boa hora criado por Roberto Carneiro e jamais avaliado. Nos idos de vinte, já muitos me consideravam um “dinossauro da educação”. Em verdade se diga ser verdade tal epíteto. 

No final da década de sessenta, não havia computadores, muito menos Internet. O vosso avô já tinha lido tudo o que, teoricamente, estava disponível: de  Montessori a Dewey, de Claparède a Freinet – uma fortuna gasta, comprando livros, assistindo a seminários (quase todos clandestinos, pois estávamos em tempo da ditadura), inscrevendo-me em formações – sucessões de acetatos disparados de retroprojetores. 

O que escutava nesses seminários e formações? Formadores falando aquilo que eu tinha lido nos livros. 

Trinta anos depois, os encontrei, nas salas de aula da universidade, palrando o mesmo de vinte anos antes. Cinquenta anos decorridos, já aposentados, os reencontrei nas redes sociais e em congressos da sociedade do espetáculo, lado a lado com jovens congressistas, papagueando as mesmas arengas, então, já num linguarejar sofisticado. 

A praga teoricista alastrara ao Brasil. E tristes efeitos não se fizeram esperar. Novas velhas teorizações de teorias inundaram a Internet, nova maquilhagem preenchia a vacuidade do Sistema. Eram raros os palestrantes que praticavam aquilo que aconselhavam os professores a praticar. Felizmente, nos anos vinte, havia uma “reserva moral” de palestrantes provindos do chão de escola. Disso vos falarei.


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