Pular para o conteúdo principal

Butantã, 18 de setembro de 2044

Sempre andarilhando, na véspera de mais uma viagem ao Nordeste, rumei ao Sudeste do Brasil, mais concretamente ao Butantã de São Paulo. 

Com a minha amiga Rosely e uma extraordinária equipe, no início da primeira década deste século, ajudei a mudar as práticas de uma escola. Vinte anos depois, voltava à “Amorim Lima”, pela mão da Mãe Marcela. 

Reencontrei a minha amiga Ana, que me apresentou a Patrícia, a Lorena e outras maravilhosas educadoras. Ali deixei o convite para a retomada de um projeto, que muito tinha evoluído em duas décadas de grandes transformações.

Tempos atrás, questionastes o fato de, frequentemente, eu mencionar nestas cartinhas nomes e mais nomes, e me pedistes que vos explicasse o porquê desse hábito epistolar. Pois bem! Vos satisfaço a curiosidade.

Ítalo Calvino imaginou Marco Polo descrevendo perante Kublai Kan uma ponte, pedra a pedra. Marco Pólo insistia na ideia de que a ponte não era sustida por esta ou por aquela pedra, mas pela linha do arco que elas formavam. 

Sem nada entender, o poderoso Kublai Kahn disse que apenas o arco lhe interessava e ordenou a Marco que parasse de falar de pedras. 

Marco Pólo respondeu que, sem pedras, não haveria arco. 

São as pessoas que fazem as escolas. E a Ana Elisa era a “pedra angular” da Escola Desembargador (e poeta) Amorim Lima. A Ana sabia que um projeto é um ato coletivo. E que sem outras “pedras”… não haveria arco.

Quando participei em projetos, sempre o fiz em equipes constituídas por três educadores. Aqui vos deixo uma pequena lista de companheiros de projeto.

Na Ilha dos Tigres do longínquo maio de 68, me juntara ao Senhor Cardoso e ao Artur. Em 1970, fizera equipe com o Meireles e a Conceição. Em 1976, com pais como o Armindo e a Clara, comecei a “Fazer a Ponte”. Em 1979 – o “Ano Internacional da Criança – contei com a Tita e a Conceição, para organizar as associações de pais e relançar em comunidade o projeto da Ponte. Em 1982, com a Maria José e a Maria Luísa, o projeto se consolidou. Em 2011, com a Claudia e a Edilene, nasceu a Escola do Projeto Âncora. 

Nesta longa lista não menciono os nomes de duas educadoras com quem partilhei a coordenação do último dos projetos da minha vida profissional. São merecedoras de referência numa próxima cartinha. Voltando à “Amorim”… 

Apercebi-me de que a Ana havia criado as condições para retomarmos rumos de inovação. E de que deveríamos reforçar a aproximação “triangular” que religasse escola, poder público e universidade. Para esse propósito contribuía uma comunicação apresentada pelo amigo Nóvoa. 

Um excerto da comunicação, que dava pelo título "Do excesso do discurso científico-educacional à pobreza das práticas pedagógicas", me ajudou a rever o tipo de relação da universidade com projetos como o da Amorim, o de Heliópolis, o da Ponte, o do Âncora, o da Escola Aberta:

"Uma das realidades mais importantes das duas últimas décadas é o desenvolvimento extraordinário do campo universitário da pedagogia e/ou das ciências da educação. É verdade que existe, no espaço universitário, uma retórica de “inovação”, de “mudança”, de “professor reflexivo”, de “investigação-ação” etc., mas a Universidade é uma instituição conservadora, e acaba sempre por reproduzir dicotomias como teoria/prática, conhecimento/ação. A ligação da Universidade ao terreno (curiosa metáfora!) leva a que os investigadores fiquem a saber o que os professores sabem, e não conduz a que os professores fiquem a saber melhor aquilo que já sabem." 

Na Amorim Lima da década de vinte, foi possível ultrapassar “dicotomias”.

Disso vos falarei.


Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...