Pular para o conteúdo principal

Distrito Federal, 24 de outubro de 2044

Entre os anos setenta e oitenta, participei em inúmeros círculos de estudo. No início da década de noventa, ajudei a juntar educadores de vários círculos e a Associação PROF foi fundada. Essa associação criou o primeiro centro português de formação continuada. Transcrevo parte da ata de reunião de um dos círculos de estudos realizados na PROF, há cerca de cinquenta anos:

“Os professores não exercem de uma forma feliz a sua função. As pessoas começam o ano cansadas. Dizem que não lhes apetece fazer nada. Há um desgaste imenso. Ainda bem que houve esta chuva de exigências. Mostrou a fragilidade dos professores. Mostrou que, já antes, as coisas funcionavam mal. Se estivéssemos certos do nosso valor e do valor que a sociedade reconhece ao nosso trabalho, a avalanche não seria tão sentida. Pode estar a faltar determinada formação…”

A ata dava conta de uma situação semelhante àquela que muitos professores vivenciavam. A sobrecarga de trabalho, associada à angústia de não conseguir ensinar todos os alunos, gerava desgaste, bournout.

“Pode estar a faltar determinada formação” – referia a ata. 

No século passado, como nos anos vinte deste século, a formação de professores estava imersa em equívocos. Sabíamos que um formador não ensinava aquilo que dizia, que ele transmitia aquilo que era – valores.

Sabíamos, já, que a aprendizagem era antropofágica. O aprendiz não aprendia aquilo que o professor dizia, mas aquilo que o professor era. E os formandos aprendiam o outro, aprendiam o formador – isomorfismo!

A nova formação surgiu na PROF, quando o subsistema de formação continuada foi criado, uma formação isomórfica, praxiológica, geradora de aprendizagem. 

Isomórfica, porque o modo como o professor aprendia é o mesmo modo como o professor ensina.va Se o formando participava de um curso sobre “metodologias ativas na sala de aula”, ele não iria desenvolver “metodologias ativas”, mas “inativas”. Se o formador “dava aula” na modalidade de curso (uma modalidade de formação do século XIX), o formando iria “dar aula”. Aquilo que ficava de um curso era aquilo que o formando havia vivenciado. Era o modo, não o conteúdo. 

A nova formação era praxiológica porque partia do fazer, para refletir. As dificuldades de ensinagem sentidas pelo professor impelia-o à pesquisa, numa dialética freiriana posta em prática, através da mediação assegurada por um formador que já havia posto em prática a teoria.

Na formação tradicional, o formador recorria ao blá, blá, blá dos teoricistas, fornecia técnicas, falava dos piagets e dos vygotskys da vida. Quando terminava o curso, o professor voltava para a sala de aula com um certificado, mas o Piaget não estava lá e o Vygotsky tinha fugido. 

Na PROF, a formação era geradora de aprendizagem. A teoria não precedia a prática. E o professor não era considerado objeto, um “incapaz” que recebia “capacitação”. Era considerado sujeito de aprendizagem, ao serviço de um projeto assumido por uma equipe e que uma comunidade havia adotado.

No 24 de outubro de 2024, dia do aniversário de um professor meu filho e vosso pai, professores, pais, gestores, deram início a uma formação voltada para a criação de novas construções sociais de aprendizagem. O espírito da Associação PROF estava presente nas palavras de uma formadora idealista da década de setenta:

“Se, também és apaixonado/a pela educação, se não te conformas com o estado da educação, se queres participar na transformação da educação e não sabes como, se te inquieta o que fazem com as crianças e jovens, esta formação é para ti!”


Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...