O Sartre dizia haver dois tipos de pessoas que diziam a verdade: as crianças e os loucos. E, nos idos de vinte, para obstar à sadia loucura, os loucos eram internados em hospícios, enquanto as crianças e os jovens eram guetizados, na mesma sorte dos velhos confinados em lares da terceira idade ou estupidificando-se, frente a um televisor.
Naquele tempo, os verdadeiros loucos andavam à solta e os netos eram separados dos avós em tenra idade. A salutar criatividade da infância era cerceada pela louca velha escola. Mas a “busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida”, como nos dizia o sábio Einstein. E as pinturas dos considerados loucos, nos quais a Nise reconheceu genialidade, deram origem a um belo museu, prova de que nem tudo estava perdido.
Depois de um saboroso encontro na UERJ de São Gonçalo, atravessei a Ponte e fui conversar com amigos que cuidavam do Engenho de Dentro, onde o Hotel da Loucura provava ser possível, em imprevistos e improváveis lugares, retomar o rumo perdido da humanização, concretizar utopias.
No discurso sobre educação, a palavra utopia era sinônima de impossibilidade. Mas, como diria o Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las”. Concretizar utopias – recriar vínculos, rever e re-olhar, reelaborar as práticas – reconfigurava a metáfora do Mito de Sísifo, o “inédito viável” freiriano.
A nova educação, que emergia do sonho de todos nós, deveria formar o cidadão democrático e participativo, o ser humano sensível, solidário, amoroso. Todas as teorias já estavam escritas. Importava renovar a denúncia de um sistema obsoleto, a par com o anúncio da possibilidade de uma aprendizagem transformadora.
Nunca seria demasiado afirmar a possibilidade de uma escola na qual os aprendizes fossem designers de si próprios em comunidade, aprendessem a lidar com um conhecimento mutante, na busca da integração das diversas dimensões do humano “para garantir condições de se atribuir novos sentidos à existência e atender a necessidade do engajamento do sujeito na construção do futuro”, como diria uma Nise, que um tal Carl Jung admirava e desejava conhecer.
Aos amigos da UERJ deixei o convite para humanizar em círculos de aprendizagem, numa escola onde não havia dentro nem fora. Se não, o que se aprendia dentro de um edifício escolar, que não pudesse ser aprendido fora dos seus muros? Quase nada!
Os decisores não sabiam que o espaço de aprender era todo o espaço, tanto o universo físico como o virtual, e a vizinhança fraterna, porque escolas eram pessoas e o modelo escolar não era o único modelo de educação. Elas deveriam ser pensadas a partir das comunidades que serviam. Urgia que pedagogos e “paidagogos” devolvessem as escolas à comunidade.
A recuperação de vínculos afetivos, seria início de cura das enfermidades sociais, como dissera a Nise:
“O que cura é o contato afetivo entre uma pessoa com a outra. O que cura é a alegria. O que cura é a ausência de preconceito”.
Nos idos de 24, numa UERJ renovada, talvez tivesse chegado o tempo do despontar da claridade que pôs fim à loucura dos loucos de fora do Engenho de Dentro. Talvez tivesse chegado o tempo de, à semelhança do Jung, o Brasil reencontrar a Nise.
