Pular para o conteúdo principal

São Gonçalo, 22 de outubro de 2044

Já não me recordo de quem terá escrito que, junto com Anísio Teixeira, Freire, Darcy e Lauro formavam o quarteto mais fecundo, fértil e injustiçado da história da educação em nosso país, mas sei que li algo assim. E não eram apenas estes os injustiçados. Temos registros de muitas e muitos outros... como a Nise.

O Sartre dizia haver dois tipos de pessoas que diziam a verdade: as crianças e os loucos. E, nos idos de vinte, para obstar à sadia loucura, os loucos eram internados em hospícios, enquanto as crianças e os jovens eram guetizados, na mesma sorte dos velhos confinados em lares da terceira idade ou estupidificando-se, frente a um televisor. 

Naquele tempo, os verdadeiros loucos andavam à solta e os netos eram separados dos avós em tenra idade. A salutar criatividade da infância era cerceada pela louca velha escola. Mas a “busca da verdade e da beleza são domínios em que nos é consentido ficar crianças toda a vida”, como nos dizia o sábio Einstein. E as pinturas dos considerados loucos, nos quais a Nise reconheceu genialidade, deram origem a um belo museu, prova de que nem tudo estava perdido. 

Depois de um saboroso encontro na UERJ  de São Gonçalo, atravessei a Ponte e fui conversar com amigos que cuidavam do Engenho de Dentro, onde o Hotel da Loucura provava ser possível, em imprevistos e improváveis lugares, retomar o rumo perdido da humanização, concretizar utopias. 

No discurso sobre educação, a palavra utopia era sinônima de impossibilidade. Mas, como diria o Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las”. Concretizar utopias – recriar vínculos, rever e re-olhar, reelaborar as práticas – reconfigurava a metáfora do Mito de Sísifo, o “inédito viável” freiriano. 

A nova educação, que emergia do sonho de todos nós, deveria formar o cidadão democrático e participativo, o ser humano sensível, solidário, amoroso. Todas as teorias já estavam escritas. Importava renovar a denúncia de um sistema obsoleto, a par com o anúncio da possibilidade de uma aprendizagem transformadora. 

Nunca seria demasiado afirmar a possibilidade de uma escola na qual os aprendizes fossem designers de si próprios em comunidade, aprendessem a lidar com um conhecimento mutante, na busca da integração das diversas dimensões do humano “para garantir condições de se atribuir novos sentidos à existência e atender a necessidade do engajamento do sujeito na construção do futuro”, como diria uma Nise, que um tal Carl Jung admirava e desejava conhecer. 

Aos amigos da UERJ deixei o convite para humanizar em círculos de aprendizagem, numa escola onde não havia dentro nem fora. Se não, o que se aprendia dentro de um edifício escolar, que não pudesse ser aprendido fora dos seus muros? Quase nada! 

Os decisores não sabiam que o espaço de aprender era todo o espaço, tanto o universo físico como o virtual, e a vizinhança fraterna, porque escolas eram pessoas e o modelo escolar não era o único modelo de educação. Elas deveriam ser pensadas a partir das comunidades que serviam. Urgia que pedagogos e “paidagogos” devolvessem as escolas à comunidade. 

A recuperação de vínculos afetivos, seria início de cura das enfermidades sociais, como dissera a Nise: 

“O que cura é o contato afetivo entre uma pessoa com a outra. O que cura é a alegria. O que cura é a ausência de preconceito”. 

Nos idos de 24, numa UERJ renovada, talvez tivesse chegado o tempo do despontar da claridade que pôs fim à loucura dos loucos de fora do Engenho de Dentro. Talvez tivesse chegado o tempo de, à semelhança do Jung, o Brasil reencontrar a Nise.


Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...