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Tapera, 21 de outubro de 2044

“O correr da vida embrulha tudo. Vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Dizia-nos Guimarães Rosa que a Vida requeria coragem. E coragem foi o que não faltou a quem, no outubro de 24, assumiu a decisão ética de reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, e produzir transformações nas suas práticas de Vida – uma nova construção social de educação emergia das cinzas de um sistema educacional decadente.

As escolas careciam de um novo sistema ético e de uma matriz axiológica clara, baseada no saber cuidar e conviver. Os projetos humanos dos idos de vinte requeriam o abandono de estereótipos e preconceitos, exigiam que se transformasse uma escola obsoleta numa escola que a todos e a cada qual desse oportunidades de ser e de aprender, que praticasse “educação integral”. 

Anísio Teixeira, a maior referência do “Currículo em Movimento” concebia a ideia de uma educação integral, onde se acolhesse toda a amplitude do ser e se usasse como matéria prima a própria vida: 

Se o nosso interesse é pela vida, aprender significa adquirir um novo modo de agir. Aprende-se através da reconstrução da experiência. Toda aprendizagem deve ser integrada à vida, ou seja, adquirida em uma experiência real de vida”.

Uma portaria publicada pela secretaria de educação, em 2009, estabelecia diretrizes que possibilitavam a ampliação de tempos, espaços e oportunidades educacionais. Não se tratava apenas de lutar pela melhoria da educação, mas de fazer desse processo uma estratégia para a melhoria da vida das pessoas. Uma nova forma de fazer educação era pensada a partir do contexto da comunidade onde a aprendizagem ocorria, na medida em que transformava positivamente a sua realidade socioambiental. 

Numa pesquisa, que coordenei no IBICT, verifiquei que o conceito de comunidade era diverso e difuso, assim como a capacidade da escola de estabelecer ações efetivas com o seu entorno. Para os entrevistados, o fato de a escola acolher alunos de realidades territoriais distintas, não próximas da escola, dificultava o sentido de pertencimento dos alunos ao contexto territorial e impossibilitava a interação da escola com a comunidade de origem dos alunos. A relação entre escola e comunidade mostrava-se precária. A participação das famílias acontecia, quase exclusivamente, em escassas reuniões formais.

No outubro de vinte e quatro, um cenário de mudança e inovação viria a implantar protótipos de comunidade de aprendizagem estruturados em redes.

Núcleos familiares se organizaram em círculos de vizinhança, nos quais a aprendizagem presencial – em pequenas aglomerações – se articulava com a aprendizagem por tutoria remota. 

No decorrer de 2024, esses núcleos deram origem a “turmas-piloto”, que transmutaram a prática de muitas escolas. Porque escolas são pessoas, as comunidades eram feitas de pessoas, que participavam na produção conjunta de conhecimento. Aprendia-se na intersubjetividade, numa tripla dimensão curricular e no contexto de uma multiplicidade de espaços. Entre os edifícios das escolas, das igrejas, das habitações, das associações, das empresas, ou nos espaços de lazer, estabelecia-se uma interação humana capaz de concretizar os ODS e de dar sentido ao quotidiano das pessoas, influenciando positivamente as suas trajetórias de vida. 

Os objetivos educacionais da Constituição se concretizavam, os projetos das escolas deixavam de ser letra morta e o Estatuto da Criança e Adolescente era (finalmente!) respeitado.


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