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Barretos, 30 de novembro de 2044

Neste mesmo dia de há vinte anos, voltei a Barretos. No meu andarilhar, raramente havia uma segunda vez, mas o SENAC era uma instituição que eu admirava, e não resisti ao convite que me foi dirigido.

No caos do sistema educacional de São Paulo, o SENAC era exceção honrosa, possuía potencial necessário à regeneração do sistema, à humanização da formação profissional. Faltava apenas um “golpe de asa”. E a Tina manteve contato com a Fernanda a Luciana, o Juliano e com outros educadores e gestores da região, para que surgisse um 2025 auspicioso, tempo de realizações em lócus de oportunidades de inovar. E ventos de mudança, também, se anunciavam em terras de Portugal.

Nos idos de setenta, a Jacinta – uma das fundadoras do Centro de Formação PROF isto escreveu numa avaliação do trabalho em círculo de estudos:

“Que rigor e que exigência existem num modelo educacional, no qual, por imposição de um sistema, alunos do século XXI são “ensinados” em salas de aulas do século XIX? Mas, esse tal “sistema”, que dizem que não permite mudanças… somos nós!”

A Jacinta estranhava que, decorrido meio século, ainda houvesse quem ignorasse a existência do princípio do isomorfismo na formação, quem acreditasse que a teoria precedia a prática, quem considerasse o formando como objeto de formação, quando deveria ser tomado como sujeito em autotransformação, no contexto de uma equipe e com um projeto profissional, de comunidade e de Vida.

Prevaleciam práticas carentes de comunicação dialógica, culturas de formação individualistas, de competitividade negativa, das quais estava ausente o trabalho em equipe.

"Temos melhorado o modo de ensinar, mas não combatemos o mal pela raiz. Não há direito de não nos deixarem trabalhar de maneira diferente. Os professores e gestores que impedem o nosso trabalho deveriam ser castigados.

Há valores que falham nas pessoas dos professores. Teremos de mudar o nosso comportamento. Não estou doente, estou consciente. Como elemento da associação devo falar isto. A associação deve permitir estes desabafos, sem termos medo de que nos considerem malucas. De outra forma, não me interessa continuar a ser professora.

Deixai-me contar isto... Um inspetor veio à minha escola e só queria números. Em termos da realidade que ali se vivia, nada! Não se pode admitir! Ele disse que era superior hierárquico. Respondi-lhe com respeito, mas de maneira que ele se foi e não voltou.

Muitos colegas tiraram um curso para repetir o que lhes meteram na cabeça. Deixam-se manipular por outros. O meu marido não respeitava a minha profissão, dizia que era banal e insignificante. Para que o meu marido me considerasse (o trabalho dele é de fazedor de dinheiro e o meu é mal pago, mas faz crescer outros) eu precisei de acreditar em mim em primeiro lugar. Ao fim de vinte e quatro anos de serviço e de vinte como casada, ele dá-me valor. Eu cresci perante o meu marido como pessoa, através da minha profissão."

Com esta boa gente passei vinte anos, talvez os mais produtivos da minha vida profissional. Nos idos de vinte, as fundadoras da Associação PROF estavam aposentadas, outras haviam falecido, mas o seu exemplo de dignidade profissional inspirara novas gerações de educadores. No Brasil, reencontrei esse espírito de reelaboração da cultura profissional, a reivindicação de dignidade.

 Em Barretos e em outros lugares uma nova Educação acontecia. Era passado mais de meio século de intensa militância pedagógica. Era tempo de o vosso avô se retirar de cena, de ir plantar árvores e cuidar dos pássaros da Alice. Era tempo de viver.


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Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...