Tendo sido a primeira a concretizar a transição do instrucionismo para uma prática em que o aluno virava sujeito de aprendizagem, assegurou a construção de projetos de vida. A relação entre tutor e aprendiz permitia ir além do domínio cognitivo, sendo plenamente contemplada a multidimensionalidade do ser humano – a afetividade, o emocional, o social, o físico-motor, a estética, a ética, a espiritualidade.
A Ponte passou a ser um incómodo para académicos teoricistas e para professores de escolas próximas. Foi caluniada, maltratada, sofreu a erosão de burocratizações várias, mas resistiu.
Achei por bem “desenterrar” um velho documento que, no tempo em que foi escrito, sofreu tentativas de ostracismo e ocultação por parte de políticos manhosos e professores de baixo coturno moral. Refiro-me ao “Relatório apresentado a S. Ex.ª a Secretária de Estado da Educação pela Comissão de Avaliação Externa do Projecto Fazer a Ponte” (sic). Amanhã, vos darei a conhecer alguns excertos desse documento. Nesta cartinha, apenas o citarei no capítulo das Recomendações”, quando a Comissão de Avaliação Externa refere “o número excessivo de alunos para a dimensão das instalações”:
“A inadequação e insuficiência das instalações, principalmente a ausência de um ginásio e de laboratórios para permitir um ensino experimental; necessidade de instalações amplas, funcionais, com equipamento laboratorial que permita a realização de aprendizagens experimentais; em função da especificidade do Projecto, máxima conveniência na celebração, prevista no Decreto-Lei n° 115-N; 98, de 4 de Maio, de um contrato de autonomia.
Em 2004, foi celebrado o primeiro Contrato de Autonomia de que reza a História da Educação – um contrato “rasgado” pelo ministério da educação… com o “consentimento” dos professores.
Para que fique registado: em 2003, um relatório de avaliação externa apontava a necessidade de construir mais um espaço de aprendizagem da Escola da Ponte. Entre 2003 e 2004, acompanhei representantes do ministério na procura de um terreno para construção de um polo da Escola da Ponte em… VILA DAS AVES.
Em 2012, políticos manhosos e “professores” moralmente corruptos desenraizaram a Ponte, atirando-a para um prédio do outro lado do rio. Volvidos vinte anos sobre a celebração do contrato de autonomia, quando perguntei aos professores da Ponte por que razão migraram para terra alheia, responderam “terem sido obrigados” – quem os obrigara?
A perfídia de políticos e dos “professores” de outras escolas, e o autoritarismo do ministério não me surpreendiam. O que me causou profunda mágoa foi assistir ao desrespeito pelas decisões dos pais dos alunos, que recusaram a ida dos seus filhos para um prédio algures, e o “consentimento” dos professores.
Essa foi a “gota de água”, que fez transbordar o “copo da indignação”. A minha escola adoecera. O projeto “Fazer a Ponte” estava ferido. Em 2024, voltei à minha terra, para ajudar a refazê-lo. E, na primeira metade de vinte e cinco, propus a realização de um debate público fundamentado sobre Educação, de modo a regenerar um sistema obsoleto, autoritário e corrupto. Urgia pôr um ponto final na impunidade.
