Pular para o conteúdo principal

Nova Mutum, 26 de agosto de 2044

Nos idos de vinte e quatro, ainda habitávamos a proto-história da humanidade e disso não nos dávamos conta. No tempo que nos coube em sorte viver, os homens matavam em nome de credos, usurpavam territórios em nome da paz, edificavam tribunais e prisões em nome da justiça. As frágeis instituições do início do século refletiam uma humanização precária. E a instituição Escola não constituía exceção. Fora concebida como berço de oportunidades, mas transformara-se em “berço de desigualdades”.

A política educacional estava condicionada por interferência transnacionais, num projeto de modernidade ainda por cumprir. Aferia-se o estado do sistema através de estudos comparativos, como se fosse possível reduzir a realidade a cifras. Sucediam-se os decretos, os despachos, as portarias. O erário público pagava gongóricos relatórios produzidos por inúteis grupos de trabalho. Acumulavam-se no ministério e nas universidades dispendiosos “estudos”, que não logravam ir além de óbvias “recomendações”.
As leis preconizavam que se deveria assegurar uma formação geral, comum a todos e proporcionar aos alunos experiências que favorecessem a sua maturidade física e socioafetiva. Porém, convivíamos com o “insucesso educativo”, como se essa expressão não fosse, em si mesma, paradoxal. Como poderia a palavra “educativo” ser adjetivo da palavra “insucesso”?
Tratando os “desiguais” como se fossem iguais, “em pé de igualdade”, não apenas se mantinha a desigualdade – durante a pandemia, ela aumentava. Metade dos alunos não eram “alcançados” pelos seus angustiados professores E o cansaço da produção de videoaulas era inútil porque os “alcançados” quase nada aprendiam escutando aula, cumprindo tarefa… uniformizados.
Não fora a dedicação e o anónimo esforço de muitos e bons profissionais da educação, há muito, o neoliberalismo teria extinguido a instituição Escola, como empresa falida. Ainda havia quem resistisse e me confidenciasse vivências, que confirmavam processos de exclusão:
 "Tristeza vem, quando me deparo com a realidade das nossas escolas. Por que será que os professores resistem à diferenciação, quando a sua pertinência é tão óbvia?”.
Essa mesma voz me relatou um incidente crítico, que me custou a digerir:
“A colega dá-me licença?” – e, sem aguardar resposta, a “colega” entrou na sala “É o que faz deixar vir para a escola estes marginais lá do bairro! Antigamente, tínhamos uma escola tão bonita!”
A “colega invasora da sala” deu um sonoro par de tapas num dos alunos da fila dos “feios, porcos e maus”. E, na “fila dos bons”, um dos alunos murmurou:
“Tia, não foi esse que partiu o vidro!”
“Não foi? Então, pronto! Já fica com o tapa, para quando fizer besteira!”
Na fila dos burros, onde o “desigual” contemplado com a bofetada vegetava, não havia quem soubesse ler o “quadro da belezura”, onde os alunos “puxa-saco” escreviam os seus nomes, no fim de cada aula. Nem o “quadro da feiura”, onde eram escritos os nomes daqueles que não conseguiam completar as tarefas no tempo pré-estabelecido, ou que as terminavam antes do tempo e usavam o restante em ameno falatório.
Na fila dos “desiguais”, estava o “lixo da escola” – foi a expressão que eu escutei numa escola igualmente desigual, muitos anos atrás – aguardando a hora do intervalo, esperando o fim da aula, desesperando…
Felizmente para os “desiguais”, nem todas as escolas eram “iguais”. E eu continuava a acreditar nos professores e na remissão do “sistema”. Esperançava que, algum dia, a Escola retomaria a sua missão de “berço de oportunidades”.

Postagens mais visitadas deste blog

Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...