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Vila das Aves, 20 de novembro de 2044

Netos queridos, os meninos e as meninas que aqui vedes são, hoje, idosos na casa dos setenta.

Encontrei esta fotografia debaixo do documento de que, ontem vos falei: um “Relatório de Avaliação Externa”. Nesta cartinha vos revelarei alguns excertos do seu capítulo “Conclusões e recomendações”. Tinham passado vinte anos sobre o tempo em que o vosso avô chegara à Ponte. As velhas carteiras tinham sido substituídas por mesas circulares construídas pelos pais dos alunos. E já havia uma equipe – a Luíza a Maria José e eu – agindo em diversos espaços de aprendizagem.

O que nos dizia o “relatório”?

“Tendo em conta a análise de toda a documentação disponibilizada, assim como através da observação das actividades, quer das reuniões havidas com a equipa docente e com a Direcção da Associação de Pais, a Comissão de Avaliação Externa (CAE) considera poder estabelecer os seguintes pontos fortes: 

A filosofia subjacente ao Projecto “Fazer a Ponte”, caracterizada por princípios de desenvolvimento da autonomia e da cooperação entre os alunos, com a finalidade de educar para e na cidadania e de efectivo envolvimento de todos os intervenientes na acção educativa (pais, professores e alunos); 

A realização de uma integração curricular, desenvolvida de acordo com os princípios de um ensino e uma aprendizagem cooperativos;

A existência de um conjunto de docentes altamente motivados e empenhados no processo de acompanhamento dos alunos;

A presença de um acentuado espírito de corpo e de identificação com o Projecto por parte de docentes e de alunos; 

A preocupação da Escola em constituir-se como escola inclusiva, em termos sociais, culturais e de intervenção junto de alunos com necessidades educativas especiais; 

A diversidade de modos de actividade (trabalho individual, em pequeno grupo, ensino mútuo e ensino directo) pedagógica;

A adequada articulação entre objectivos e actividades correspondentes às diversas áreas curriculares; 

A ligação entre a escola e a família, implicando a participação activa desta na aprendizagem dos alunos.”

A “radiografia” da nossa escola incluía elogiosas considerações:

“A CAE foi confrontada com um projecto-acção e avaliação da acção, com objectivos e elementos constitutivos bem definidos e apoiados. Não se está perante uma teoria construída, apenas, na prática, mas antes, diante de uma prática baseada em princípios metodológicos democráticos, colaborativos, reflectidos e sistematicamente testados e revistos, que radicam, entre outros, no pensamento de Dewey, Freinet e Paulo Freire e nos Movimentos da Escola Moderna e da Escola Nova. 

Procurando proceder a um juízo avaliativo objectivo e fundamentado, a CAE considera que: a utilidade social e o sucesso da escola podem ser facilmente constatados e/ou confirmados, não só pelos processos utilizados, mas também pelos resultados obtidos, que o Relatório regista.”

Este parágrafo foi como a “cereja no bolo”... 

Professores de outras escolas faziam constar que os alunos da Ponte tinham menor desempenho académico. O estudo comparativo realizado pela CAE das classificações obtidas pelos alunos da Ponte em comparação com as de alunos de outras escolas demonstrou o contrário: as melhores “notas” eram obtidas pelos alunos da Ponte.

Para nós, professores da Ponte, esse facto, embora provasse a “excelência académica” do nosso projeto, era irrelevante. Relevante era o facto de termos concretizado algo que, décadas mais tarde, seria objeto de teses e seminários: a “educação integral em tempo integral”.


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