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Alto da Bandeira, 20 de janeiro de 2045

Encerro esta sequência de cartas-memórias com dois exemplos de mensagens de apoio recebidas por setembro de 2003.

“Tive o privilégio de conhecer o funcionamento da Escola da Ponte e alguns dos seus professores. Muito me tenho inspirado no que lá se faz. Este projeto não pode acabar. Convido as pessoas a visitar a escola, e, posteriormente, a ajudá-la a sobreviver a esta «casmurrice ministerial», porque este problema não se resume à «maçaneta da porta da sala 25» de uma escola qualquer, tal como o afirmou um deputado, o qual, definitivamente, não frequentou a Escola da Ponte, porque a sua cultura democrática não se reduziria a um «espírito de carneirada», desprovido de conhecimento de causa e reflexão sobre a mesma” (Susana).

"Quais as razões pelas quais as nossas escolas não funcionam com a qualidade desejada?". Esta questão se encontra intimamente ligada à problemática atual da Escola da Ponte.

Como as pessoas sabem, esta é uma escola com um projeto educativo ambicioso, e como tal o Estado decidiu alargá-lo a todo o Ensino Básico. No entanto, inexplicavelmente, o Estado voltou atrás com a palavra, rompendo o acordo firmado, ao mesmo tempo que a escola cumpriu a sua parte desse acordo.
Alguns aspetos desta história intrigam-me. Primeiro faz-me duvidar da afirmação corriqueira de que Portugal é um Estado de Direito. Em segundo lugar, porque será que o Ministro está a transformar o diferendo com uma escola de reconhecido sucesso numa batalha pessoal, utilizando uma argumentação extremamente fraca, sendo prova disso o facto de a mesma estar em constante mutação (a que teve mais piada foi aquela que teve como base a futura Lei de Bases da Educação, pois parece que a moda de tomar decisões a partir de futuras leis está em voga nesta legislatura).

Se a Avaliação Externa pedida pelo Ministro de uma forma célere não tinha como objetivo ajudar na decisão de permitir que a escola tivesse 3º ciclo ou não, para que foi feita afinal? Para gastar mais algum dinheiro dos contribuintes?

Se assim foi, agradeço pessoalmente por ter contribuído para a demonstração cabal da grande qualidade que a Escola da Ponte tem.

Para quem quiser contribuir para o "salvamento" da Escola da Ponte, está disponível um Manifesto de apoio à escola no endereço http://www.apagina.pt/” (André).

Anglo-saxónicos visitantes da Ponte, também, tomavam posição:

Dear “everybody” whose love for Education is still alive,

The following letter is being sent to the Portuguese Minister of Education so as to lead him to understand that his last decision over our School Program is painfully unfair and it is crushing the parents, the children, the teachers, the whole staff and the infinite number of admirers of our work all over the country and all over the world. (…) We are not desperate because of a school building, better facilities, nor more funds, we simply feel tortured by the fact that a Program like ours, which is unique in Portugal, may be vanished for ever. We do not intend to make you weep. We are asking you to help us keep smiling”.

E do Brasil chegavam muitas auspiciosas notícias, entre as quais:

“Amigos, recebi do Ademar uma boa notícia. Disse-me ele num e-mail:

"Quanto à Ponte, acho que ainda não é desta que acabam conosco. Conseguimos uma solução aceitável para o problema do 7º ano e, relativamente ao resto, a ver vamos como vão correr as negociações com o Ministério. Está tudo em aberto."

Assim, conseguiu-se uma solução para o próximo ano. Durante o ano o Ministro terá tempo de estudar uma rendição honrosa...

Um abraço. Rubem Alves”.

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...