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Calçada do Alto da Canarista, 21 de janeiro de 2045

Muito mais teria a dizer, mas receio cansar-vos com estórias feitas de malefícios e indignação, pelo que me quedei por uma súmula do que mais significativo aconteceu, até 2003.

Como previu Rubem Alves, em 2004, o Ministério da Educação “se rendeu”. E a Ponte celebrou com o ministério um contrato de autonomia pioneiro. 

Entretanto, a lei da autonomia foi revista, abastardada. E a Ponte passou a ser um incómodo para académicos teoricistas e para professores de escolas próximas. Foi caluniada, maltratada, sofreu a erosão de burocratizações várias, mas resistiu. 

Em 2012, a ministerial prepotência descaracterizou a autonomia conquistada, desrespeitou as decisões de uma comunidade, descumpriu o contratado.

O Projeto Fazer a Ponte foi desenraizado, sofreu o exílio, foi metido numa “gaiola dourada”, na margem hostil de um rio, que separava culturas tradicionalmente (e infelizmente) inconciliáveis. Desde então, foi sofrendo o desgaste da resignação e deixou de ser, verdadeiramente, uma escola autónoma.

Uma Administração controladora, servida por académicos teoricistas e funcionários servis remeteram os professores para a condição de subordinados de lideranças toxicas, privados de um exercício digno da profissão, reproduzindo arcaicos rituais, em “ajuntamentos de escolas” controlados por comissários ministeriais.

Em 2017, numa intervenção no Primeiro Congresso das Escolas, o professor Licínio asseverou que as lideranças fortes se revelavam particularmente fracas, quando os diretores dos agrupamentos se assumiam enquanto subordinados, fortemente dependentes perante a tutela. 

A autonomia da escola era confundida com a autonomia do diretor, embora na prática se tratasse do exercício de micropoderes com alguma relevância para os atores escolares, mas que se mostravam “pequenas concessões de autonomia”, nas palavras do professor Silva. 

Os diretores de agrupamentos de escolas se revelavam vulneráveis nas suas relações hierárquicas com a administração central, eram escrutinados e responsabilizados por via de novos instrumentos de controlo e de “uma burocracia eletrônica cada vez mais intrusiva e autoritária”.

Da Europa dita Comunitária chegavam milhões de euros desperdiçados na construção de prédios de escola, autênticos “elefantes brancos” – a que a ignorância atribuía a classificação de “escolas do futuro” - deitando a perder projetos que, se concretizados, mudariam a face da educação.

A Ponte fora considerada a escola mais inovadora do país, passando do anonimato a “objeto de curiosidade”. Foi locus de muita pesquisa e de produção de teses. Depois, passou a “objeto de turismo educacional” e de inveja, só por ter mostrado ser possível aquilo que, mais tarde, viria a ser chamado de “educação integral em tempo integral” – um protótipo de “Escola Pública”. E pagou caro o “atrevimento”.

Em 2012, Vila das Aves perdeu mais do que uma escola! E o país perdeu o rumo da inovação educacional. 

A Ponte foi exilada em terra hostil e perdeu inclusão social. Paredes-meias com a uma “escola normal”, com ela quase não comunicava. Constituíra-se numa ilha de excelência acadêmica socialmente desenraizada.

O silêncio tomou conta do edifício de “área aberta” da Ponte. Nele se instalou a Associação dos Reformados e... a Associação de Pais da Escola da Ponte. Sendo dela sócio honorário (e fundador!), nessa qualidade a ela voltei, para ajudar a juntar os avós da ARVA aos seus netos, para refazer uma comunidade, para voltar a casar a dignidade com a autonomia.


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