“Medo não sinto, porque não parto sozinho”.
Quem nos visitava voltava para casa e para a sua escola animados de um impulso de mudança jamais concretizada – esses sonhadores raramente concretizavam projetos sonhados, pois se confrontavam com o primeiro dos obstáculos à mudança: a cultura profissional dos professores.
Quando jovem, trabalhei numa escola dos cafundós de Portugal, aldeia rural, onde ainda não tinha chegado a energia elétrica. Quarenta jovens almas para cuidar, dentro de um barracão de chão de terra colado a uma corte de gado. Um frio de zero graus penetrava pelos buracos da porta e, tiritando, nos encolhíamos junto a uma improvisada lareira feita de gravetos, que as crianças apanhavam pelo caminho.
Sempre que o sol aparecia, se cumpria o preceito do Comenius: não levávamos a árvore para a escola; levávamos a escola para debaixo da árvore. Não tardou que a comunidade se apercebesse de que os seus filhos aprendiam tudo o que, antes, não lhes tinha sido ensinado. E que aprendiam a ser.
Em seis horas diárias, num vaivém entre a minha casa e a escola. apeado do ônibus, atravessava uma mata. Parava numa clareira, para almoçar uma “quentinha”. Num bucólico ambiente, jogava migalhas aos pássaros, partilhando o meu repasto.
Durante 179 dias, assim foi. Até que, certo dia, o despertador não funcionou e… perdi o ônibus.
Consegui uma carona, que me levou, diretamente, para a escola. À minha espera estava o Padre Abreu. Visivelmente preocupado, me pediu para o acompanhar:
“Venha comigo, professor, venha comigo!”
Levou-me para a residência paroquial, trancou a porta e perguntou:
“Você veio pela mata?”
“Não”.
O padre ajoelhou-se e exclamou:
“Obrigado, meu Deus! Obrigado!”
Abraçou-me e disse:
“Professor Zé, você sabe que os pais dos seus alunos muito o estimam. Mas também sabe que a aldeia é muito conservadora. Pois, ontem, uma professora sua colega, talvez por inveja, fez constar que você pôs duas crianças nuas, para explicar como nasciam as pessoas. Alguns pais acreditaram no boato e foram esperá-lo na mata. Levavam facas e machados. Disseram-me que o iam matar.”
Nesse dia, não voltei para casa. À noite, numa reunião com os pais, tudo se esclareceu. A Margarida, minha aluna, deu testemunho. Conscientes de terem cometido um erro, os pais me pediram mil desculpas. Queriam ir à casa da professora autora do boato, para lhe aplicar represálias. Pedi-lhes que não o fizessem e que a perdoassem.
A partir desse dia, aquelas modestas famílias expressaram gratidão, oferecendo-me o melhor que tinham: ovos de galinha caipira, chouriços caseiros, couves da horta. Careciam de alimento, mas, se matavam o porquinho, obrigavam-me a aceitar o melhor bocado de carne.
“Leve, senhor professor! Leve, que não nos faz falta!”
Somente num dos 180 dias desse ano letivo não atravessei a mata. Se eu não tivesse perdido o ônibus…
Muitos anos decorridos sobre o “milagre” de ter escapado de uma morte prematura, fiz o lançamento de um livro na Escola da Ponte. Após a apresentação, fui escrevendo dedicatórias nos livrinhos de quem as solicitava. Uma senhora colocou o seu exemplar sobre a mesa e pediu que o autografasse.
Quando disse o seu nome, eu comentei:
“Tive uma aluna com esse nome. Ela me salvou a vida!”
E aquela senhora assim falou:
“Não me reconhece, Professor Zé? Sou a Margarida! Fui essa sua aluna. Vim matricular o meu filho na sua escola.”
Os velhos choram por tudo e por nada… A emoção me possui, enquanto fecho esta cartinha.
