Pular para o conteúdo principal

Guaporé, 28 de janeiro de 2045

Por que escrever histórias? – perguntareis – Porque as histórias, como a poesia, são uma linguagem do coração. O coração entende-as. E bate mais rápido. Uma história tem o poder de transformar pessoas. Então, contemo-las…

Retirante baiana, a Antônia chegou à grande cidade só com os andrajos que lhe cobriam o magro corpo. Não foi o amor, mas a fome, que a fez parir dez filhos, a juntar aos oito que o seu homem já fizera em outra mulher.

Iria fazer cinquenta anos, mas tinha no rosto as marcas de décadas de provações. Mais de um século decorrido sobre a Lei Áurea, havia na sociedade brasileira cidadãos de cidadania menor, que nada possuíam e a nada aspiravam.

O homem da Antônia sofrera três derrames e caíra na cama para não mais se levantar. A Antônia cuidava-o com o mesmo desvelo que dedicava a um menino, que uma jovem nordestina lhe confiara, antes de se perder nos atalhos da vida e da prostituição.

“O meu menino é como o meu homem, não fala nem consegue andar dois passos, mas eu peço à senhora que o deixe vir para a sua escola. Vai ver que ele ainda assim consegue aprender...”

Comovida, a diretora da escola abraçou a Antônia e a garantiu-lhe que o Edilson seria bem tratado e aprenderia tudo o que pudesse aprender. A Antônia abriu no rosto um sorriso terno e desdentado, e lá se foi de bem com a vida. E eu ali fiquei, num canto da sala, a voz amordaçada pela emoção, incapaz de responder à diretora, quando ela me dirigiu a palavra:

É como canta o Milton, professor, “há que se cuidar do broto, para que a vida nos dê flor”.

Dizia o mestre Agostinho da Silva que não existem só poetas de verso. A ideia de que a pessoa tem de se dizer poeta porque faz verso, não é verdade. Poeta é aquele que cria na vida alguma coisa que na vida não existia. Na minha peregrinação pelo Brasil das escolas, encontrei poesia nos gestos mais simples, aprendia humanidade, deparava com beleza a todo o momento. E, no dia em que conheci a Antônia, aconteceu uma overdose de beleza.

Nos idos de vinte, quando falhava a educação, subia à cena o polícia e o juiz. Mas, num quotidiano violento, eu testemunhava amorosos gestos:

“Não vá por aí, que tem assaltante esperando!

Arrepiei caminho, com um sorriso de agradecimento para o moço que me lançara o aviso. Mais adiante, um menino da rua remexia num caixote de lixo e retirava dele um pedaço de carne suja e infecta. Sacudiu-o, para soltá-lo de pedaços de guardanapo de papel. Quando já abria a boca para engoli-lo, um transeunte foi junto do moço, deu-lhe uma nota de vinte reais e, em silêncio, se afastou. 

No mesmo dia, a Tatiane deixou uma mensagem no meu computador:

“O que me move é o amor, pela vida, pelo outro e por acreditar nisto traço meu percurso enquanto educadora na emoção e no sentimento. Não posso basear minha ação pedagógica no sistema falho, devo baseá-la no ato vivo na emoção e na relação que estabeleço a cada dia. Para resgatar este outro que foi julgado, descriminado e rotulado.”

Comenius, na Pampaedia:

Nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde.”

Nas minhas peregrinações pelo Brasil das escolas, encontrei muita maravilhosa gente, que buscava realizar o desiderato de Comenius. A esperança – aquela que Pandora não deixou que saísse da sua caixa e cuja etimologia nos remete para a fé na bondade da natureza – manifestava-se em discretos gestos de educadores, que nos davam lições de humanidade.

Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...