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Janaúba, 27 de janeiro de 2045

Ouvi dizer que a história talvez sempre tenha sido uma luta entre o bem e o mal. E que, felizmente para a humanidade, o bem sempre acabou por vencer. Ou, como diria um filósofo do século XIX, esbatendo essa dicotomia, as vicissitudes da história foram sempre além da tensão entre bem e mal.

Hoje, falar-vos-ei de quem, já no século XVI, tentava fazer o bem numa “terceira via”.

Enquanto ensaiava registros de história pré-colombiana e descrevia o início de outra história – a da colonização e exploração dos povos autóctones – o Manuel atenuava excessos dos primeiros colonos. Eram duras as suas críticas dos costumes, quando se apercebia de que até religiosos incorriam nos mesmos erros dos leigos colonizadores: 

“Omnes commixti sunt inter gentes et didicerunt opera eorum”.

Manuel da Nóbrega afirmava que possuir escravos era agir “contra a razão”. Apelava ao rei que mandasse comissários, para libertar os escravos, porque a Inquisição não o fez e semeou a morte em nome de Deus. Quanto ao rei, quando veio, não agiu contra a vil prática. Os gentios, que os jesuítas protegeram, acabaram dizimados pelas armas do homem branco e pelas maleitas que por toda a parte espalhou: entre a sífilis e a varíola, muitas comunidades foram exterminadas.

Nos anos vinte deste século, nem seria preciso introduzir a gripe dentro da tribo dos Goitacazes, para que a sua cultura fosse extinta. Bastaria levar para as comunidades indígenas a energia elétrica e a televisão. O missionário, o pastor fundamentalista e a escola fariam o resto. Bastaria que se reduzisse a Amazônia a cinzas.

Séculos após o desaparecimento desse Manuel, o Brasil permanecia incapaz de conter uma tragédia educacional traduzida em milhões de analfabetos e corrupção intelectual e moral. O modelo educacional, que continuava sendo criminosamente imposto às escolas procriara uma profunda crise, que se refletia no modo desastroso de gerir a pandemia.

A velha educação pontificava travestida de “nova” no discurso de ministros, secretários, áulicos e economistas, crentes de que as escolas poderiam ser geridas como se geria um gabinete de contabilidade ou uma padaria. Em eventos online ou presenciais eram vendidas pedagógicas besteiras com o rótulo de “inovações”. A ignorância prosperava onde ocultos interesses denegriam a memória de Freire, onde se apelava ao regresso a um passado de onde a educação brasileira nunca havia saído.

Em 2025, o exemplo das Missões, que os jesuítas edificaram, renascia sob a forma do que poderemos chamar “comunidades”. As novas “reduções” do sul, que a ambição dos homens destruiu, dispunham de autonomia econômica e cultural e funcionavam num regime comunitário. Ia por aí a intenção de educadores, que adequavam ao século XXI propostas de antanho.

O Fernando poetava dizendo que o sonho consistia em ver formas invisíveis e, com sensíveis movimentos da esperança e da vontade, buscar utopias realizáveis – esse tempo feito de ignomínia estava achegar ao fim.

Caminhos novos permitiam que a aprendizagem acontecesse juntamente com o desenvolvimento do pensar, da formação do caráter e do exercício de uma cidadania plena. O Brasil já dispunha de práticas que provavam a possibilidade de uma escola que a todos acolhesse e a todos desse condições de realização pessoal e social, base da construção de uma sociedade solidária, justa. Parecia que o tempo da educação havia chegado, tínhamos tudo aquilo de que precisávamos: gente, projetos, esperança.

Mas, o Sistema tinha manhas de sete raposas. Muitos obstáculos iríamos ainda defrontar.

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Tendo sido a Ponte a primeira escola a conseguir transitar de práticas do paradigma da instrução para o paradigma da aprendizagem, vi-me na necessidade de “explicar o modo” de “transitar”. E acompanhei processos de Transformação Vivencial, na transição do Núcleo de Iniciação para o de Consolidação. No contexto de uma prática formativa isomórfica, agi com os professores do mesmo modo que eles iriam agir com os seus alunos. No início dos anos noventa, eu havia elaborado um “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Consolidação”. Embora ele tivesse sofrido correções e atualizações, parti desse “Perfil” para o adequar a uma Nova Construção Social, nos idos de vinte e três.  Aqui vos deixo parte de um documento, que com extraordinários educadores analisei, um quarto de século após a sua redação. Perdoai a ingenuidade do texto e alguns equívocos nele contidos. Não vos esqueçais de que foi elaborado há mais de cinquenta anos. “Perfil de Transição do Núcleo da Iniciação para a Con...