Na década de setenta do século passado, já se praticava a Educação Integral que, meio século mais tarde, viria a ser mais um sazonal objeto de especulação teoricista, contribuindo para a manutenção de anacrónicas práticas, de que vos dou alguns tristes exemplos.
Numa escola considerada por teoricistas como “inovadora”, um diretor lidava com um protesto de pais contra uma “turma mista”, uma turma constituída por alunos do primeiro e do segundo ano – nesse tempo, as crianças eram repartidas por cartesianos segmentos a que davam o nome de “ano de escolaridade”, vá-se lá saber porquê!
Os pais dos alunos barraram a entrada da escola com troncos de árvores. E num cartaz, escreveram:
“Porquê duas crianças a partilhar a mesma mesa quando temos uma sala vazia?”
Nesse tempo, os alunos ainda eram armazenados, duzentos dias por ano, em salas de aula, nas quais precários vínculos coabitavam com um vazio constitutivo imposto pela ensinagem frontal anônima. Eram salas “vazias” de respeito pelo direito de aprender, mas muitos pais e professores “achavam” que, se muitos alunos não aprendessem, isso era “normal”.
A Dgeste – uma estrutura burocrática e autoritária dessa época – fez valer a sua prerrogativa:
"Por decisão superior, não será considerada a constituição de nova turma”.
E mais não disseram suas excelências.
Por inverosímil que possa parecer as instâncias de poder eram surdas a argumentos de natureza científica. E a escola da aula reproduzia um modelo social gerador de exclusão e “naturais” hierarquizações.
Pela sua natureza, a escola da sala de aula contribuía para agudizar os efeitos de uma globalização neoliberal, que remetia o ser humano para bolhas sociais feitas de ostentação, miséria e solidão. Subsistiam sinistros binómios: escolas privadas versus escolas ditas públicas; condomínios particulares versus bairros periféricos; classe executiva versus classe económica.
E a Helena pregava no deserto:
“Precisamos de uma estrutura que garanta a interação pessoal educador-estudante, o acompanhamento individualizado das aprendizagens e, ao mesmo tempo, a experiência coletiva da construção do bem comum, do diálogo, da convivência, do cuidado com o outro, da diversidade. Se os prédios e a velha estrutura chamada enturmação não servem para isso, utilizemos todos os recursos disponíveis, inclusive os tecnológicos que agora os professores conhecem”.
O “agora” da Helena era o de… há vinte anos.
Em 2025, definitivamente me insurgi contra os maus-tratos dados à infância. À distância de duas décadas, já consigo narrar fatos de antanho, sem quase deixar transparecer a revolta, mas com uma velha indignação (parece que a velhice nos devolve a serenidade, que, quando novos, nos falta).
Quase diariamente, eu recebia mensagens como esta:
“Caro Professor Zé, lhe envio um abraço de agradecimento pelo facto de me ter aberto as portas dos meus sonhos. Irei no próximo sábado a um encontro do Movimento Escola Moderna e desejo contactar quem tenha experimentado Waldorf.
Aguardo a sua visita à minha escola. E estarei sempre disponível para aprender. Um grande obrigado do Bruno”.
