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Nova Bassano, 29 de janeiro de 2045

Encontrei numa velha pen drive um ficheiro com várias notícias de uma mesma semana do dezembro de 2020. Na rotineira violência da favela, o ajudante de pedreiro Alexsandro, chorava a morte da sua filha Emily e da sua sobrinha Rebeca:

“Tô enterrando a minha filha, que não viveu nada”.

As duas crianças foram mortas em tiroteio na Baixada Fluminense. Emily, de quatro anos e Rebeca, de 7, brincavam na porta de casa quando foram atingidas por balasForam sepultadas, uma ao lado da outra. Alexsandro fechou o túmulo com as próprias mãos.

Na chamada “estrada da morte”, que tantas vezes percorri com o credo na boca, um ônibus não autorizado para transporte de passageiros caiu de um viaduto. Morreram vinte pessoas.

Numa sociedade doente, desgovernada, cativa da inversão de valores, reinava o caos da incúria e da má educação. Escasseava o exercício da cidadania.

Nas escolas, havia aulas de “educação para a cidadania”, quando se deveria educar no exercício de uma cidadania plena. As escolas cívico-militares praticavam um civismo de caserna. A cidadania instrucionista causava a destruição da Amazônia. A cidadania ensinada na universidade não obstava a que estudantes estuprassem colegas, durante o trote. Havia disciplinas de educação socio emocional, financeira, para o trânsito, para a saúde. Mas, a inadimplência se generalizava, as estradas eram cemitérios e a cidadania era uma miragem – uma “cidadania armamentista” contribuíra para o assassinato da Emily e da Rebeca.

No início deste século, o meu amigo António Nóvoa redigiu um artigo com o título “A educação cívica de António Sérgio vista a partir da Escola da Ponte (ou vice-versa)”. Com uma dedicatória: “Para todos os que têm feito e continuarão a fazer a Escola da Ponte”. Eis o que o António escreveu, a partir da obra do Mestre António Sérgio:

“É grande a nossa tendência para “adormecer a própria mente com noções vagas, sentimentais”. Tem sido uma das pechas do debate sobre a educação: a frase feita, o gesto fácil, a solução pronta-a-servir, a banalidade transformada em eloquência, em vez do estudo aturado, da reflexão sobre as experiências concretas, da análise sistemática e informada (…) Sérgio critica a albarda da resignação fomentada pela escola e afirma a necessidade de uma formação cívica prática: «a educação cívica meramente teórica parece um ensino de esgrima em que se não empunhasse uma arma, ou uma aprendizagem de piano em que os dedos se não mexessem: é um absurdo”.

E deste modo concluía o artigo:

“Fazer uma escola é, também, ser capaz de suster a indignação por tanto disparate que se escreve e manter um rumo que se alimenta da esperança enquanto necessidade ontológica, de uma esperança que, nas palavras de Paulo Freire, precisa da prática para se tornar concretude histórica. A Escola da Ponte, é uma escola extraordinária. É uma escola pública como as outras, com alunos e professores iguais a muitos outros. E com esta matéria-prima se tem vindo a fazer, graças a um trabalho metódico, persistente e coletivo, uma escola notável.

Júlio Cortázar escreve que uma ponte só é verdadeiramente uma ponte quando alguém a atravessa. Os colegas da Escola da Ponte fizeram muitas travessias. Pelo deserto ou pela floresta, eles sabem que não estão sozinhos nas travessias que têm pela frente.”

A Escola da Ponte, de que o amigo Nóvoa falava, no início do século, foi inspiração para aqueles educadores que, em 2025, anunciaram o advento de uma nova educação. Eles sabiam que não estavam sozinhos na prática de uma educação verdadeiramente integral e cidadã.

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...