Nesse tempo, os governos determinaram proibir o uso de celular em sala de aula, quando necessário seria ensinar os jovens a usar o celular, enquanto instrumento de pesquisa e comunicação.
A Internet não era uma ferramenta; era uma sociedade generosa na oferta de informação. Apenas seria necessário saber o que fazer com ela. Mas, a maioria dos professores “dava aula” em lousas digitais, em sala de aula e na Internet. Bastava “clicar” para repetir conteúdo, até que a matéria fosse “transmitida”.
As “tecnologias digitais” tinham sido transformadas em panaceias do velho modelo educacional. Serviam para produzir videoaulas, que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade das ditas “novas tecnologias”, acriticamente consumiam, na dependência de vínculos afetivos precários estabelecidos com identidades virtuais.
O modo como as escolas utilizavam a Internet fomentava imbecilidade e solidão, quando o necessário seria usar o digital ao serviço da humanização da escola. Tudo aquilo que um professor poderia "ensinar" numa sala de aula estava disponível, de modo mais atraente, na tela de um computador.
As escolas enfeitaram-se de projetos, sem lograr intensificar a comunicação, a pesquisa, a aprendizagem. Mercadores e empresas do ramo educacional espreitavam a oportunidade de substituir os prédios de escola por sistemas de “ensino à distância” – mecanismos vários, software, inteligência artificial, substituiriam professores por robôs.
Nos cursos de pedagogia, a ensinagem virtual reforçava a ensinagem no frontal anônimo de sala de aula. Porém, houve quem provasse que presencial e virtual não se excluíam, que coexistiam e se completavam. Com insubstituíveis professores se definiram territórios, múltiplos espaços de aprender; com recurso à diversidade de aplicativos, que a Internet nos oferecia.
No contexto do projeto, de que vos tenho falado, educadores criavam núcleos integrados por professores, escolas, famílias e comunidades. Começaram a chamar-lhes “círculos de vizinhança” ou, quando se tratava de operar mudança em turmas piloto, se designavam por “círculos de proximidade”. Embora nas escolas da ensinagem ainda se insistisse em formar turmas de 20 ou 30 alunos, a ratio professor/aluno nas escolas brasileiras era de cerca de 10 alunos por professor. A partir desse dado, foi definido um “número crítico” para composição desses círculos: entre 7 e 15 pessoas.
No primeiro ano do projeto, poder-se-ia aceitar um número de alunos superior ao quantitativo ideal de uma tutoria. Nesse caso, a tutoria tomava a designação de “turma”, no dialeto oficial. Nessas “turmas” se garantia a todos os alunos o direito à educação, no cumprimento da lei – a lei, que a maioria das escolas não cumpria.
Organizados em núcleos de projeto, educadores se reuniam, para refletir sobre diferentes formas de comunicação, para tomadas de decisão, para a participação comunitária, para gerir eventuais conflitos, bem como preparar encontros, onde nasceram redes de comunidades de aprendizagem.
Da criatividade à mudança e da mudança à inovação, esses educadores reconfiguravam práticas escolares, refundavam a Educação. Porém, o poder público mostrava-se insensível a processos de Mudança Educacional. E projetos com potencial inovador iam desaparecendo.
Em breve, vos direi por que razão isso acontecia.
