Pular para o conteúdo principal

Itaipuaçu, 16 de fevereiro de 2045

Queridos netos, embora as próximas cartinhas vos sejam dirigidas, elas reproduzirão algumas das cartas enviadas a milhares de educadores. Ao longo de mais de meio século, o avô Zé havia ajudado esses educadores, sempre que ajuda era pedida. Havia chegado o momento de esses educadores retribuírem solidariedade com solidariedade.

Ao longo de todo esse tempo, projetos tinham nascido e perecido. Muitos educadores éticos desistiram de concretizar os seus sonhos. Muitos foram parar no divã do psiquiatra, outros abandonaram a profissão de professor. Alguns tiveram a mesma sorte de eminentes mestres.

Pestalozzi foi humilhado. Tolstoi assistiu impotente ao encerramento da sua escola, por ordem do czar. Ferrer, que acreditava ser possível colocar humanidade no ato de aprender e ensinar, foi perseguido e executado, no dealbar do século XX. A ditadura de Salazar perseguiu a Escola Oficina, e Adolfo Lima conheceu as agruras da prisão e do exílio.

No século XIX, os ideais de Zola e de Louise Michel semearam humanização na colónia que Pedro II ofertara ao libertário Rossi. Em 1902, se humanizava o ato de aprender na Escola Libertária Germinal de Alessandro Cerchai; no colégio de Eurípedes Barsanulfo; na comunidade de Itatiaia do Mestre Agostinho; nos Colégios Vocacionais da Maria Nilde, que foi presa às ordens da ditadura militar; na comunidade terapêutica da Nise da Silveira, presa pela ditadura de Vargas.

Freire, Darcy e muitos outros eminentes educadores foram exilados. Anísio foi assassinado.

Lauro criticava a “pedagogia predial”, reafirmando que a escola não era um prédio, sugerindo que as escolas seriam pessoas... em comunidade. Lauro e outros mestres não se exilaram, mas sofreram destituição de cargos, foram impedidos de lecionar, passaram por provações várias, à imagem do que aconteceu com a Escola de Mirantão e com o Projeto Âncora, que foram caluniados e destruídos.

A lista é extensa. E um pacto de silêncio se formou em torno de iniciativas como a Universidade Popular de Ensino Livre, do Rio de Janeiro e as Escolas Modernas de São Paulo e de Bauru, da primeira década do século XX. Quem ouviu falar da Escola Germinal, do Ceará, da Escola Social, de Campinas, da Escola Operária, de Vila Isabel, e da Escola Moderna, de Petrópolis? Os professores de Porto Alegre saberão que, em 1906, havia por lá uma escola com o nome de Elisée Reclus?

A História da Educação do século XX foi feita de cemitérios de projetos e provocou a segunda morte dos seus mártires autores: a morte da memória.

Só os inconformistas com poder criador ajudam, em cada época, a quebrar as algemas de uma cegueira, que não deixa ver os outros como pessoas. E, em 2025, eram raríssimos aqueles que se arriscavam no submundo das escolas, onde a mudança necessária se processava, porque a maledicência espreitava em cada esquina.

Deveria ter sido atribuído um subsídio de risco aos educadores que arriscassem defrontar fundamentalismos e ignorâncias. Deveria ser instituído um santinho padroeiro, um anjo da guarda, que os protegesse das investidas dos seus detratores, porque eles estavam sozinhos.

Em 2025, o vosso avô compreendeu que havia sido uma espécie de Dom Quixote, quebrando lanças contra moinhos, e que nem um Sancho Pança o acompanhava. Em momentos críticos encontrava-se sozinho.  

Em 2025, era preciso defender os projetos da Escola da Floresta e da Comunidade de Maricá. Essas comunidades não poderiam enfrentar sozinhas atos de corrupção moral e as investidas de gente de má índole. Necessitavam de solidariedade ativa.

Postagens mais visitadas deste blog

Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...