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Ponta Negra, 17 de fevereiro de 2045

“NINGUÉM LARGA A MÃO!” - esse era o grito feito de medo, que ecoava nos barracos improvisados onde funcionava o Curso de Ciências Sociais da USP, num tempo de ditadura. Durante a noite, quando as luzes das salas de aula eram repentinamente apagadas, os estudantes buscavam as mãos uns dos outros e se agarravam ao pilar mais próximo. Quando as luzes se acendiam, faziam uma chamada entre eles. Muitas vezes, acontecia de um colega não responder. Já não estava entre eles. Estava sozinho.

“Todos irmãos!” – Era assim que Francisco nos convidava, através de um singelo apelo, a assumir esse grande princípio dos Direitos Humanos: “Será possível aceitar o desafio de sonhar e pensar uma Humanidade diferente ".

Urgia dar forma concreta às palavras do Francisco, porque nos chegavam notícias de uma barbárie generalizada. Mas, a esperança de melhores dias se fortalecia, quando recebia mensagens de educadores, cujos generosos atos contribuíam para o advento de uma “Humanidade diferente”. Era raro o dia em que não chegassem e-mails como o da Nieve, que cuidava de crianças numa comunidade na zona sul de São Paulo:

“Paulo Freire e Rubem Alves são meus "combustíveis" de conceção de uma escola em que acredito e que tento contribuir para transformar.”

Ou a solidária mensagem da Joyce e do Glauber:

“Sinto muito tudo isso que acompanhei no grupo da Comunidade e me solidarizo contigo. Senti a forma como as coisas foram conduzidas no grupo muito desrespeitosas da sua pessoa, à potência da própria Associação e com a comunidade local. Não sou da diretoria, mas, como voluntária e amiga da Comunidade, fiquei sentida com tudo isso.

Queria deixar registrado meu carinho por você e honrar sua trajetória e seus cabelos brancos. Torço para que uma nova diretoria se forme e que o trabalho possa ser retomado, e ainda mais fortalecido.

Não é fácil construir um sonho e seguir na direção de uma utopia, percalços e desafios inúmeros aparecem no caminho, mas é grandioso continuar seguindo em frente.

Te desejo força, parcerias potentes e abraços calorosos.

Lembre-se que estamos por perto!”

No fevereiro de 2025, a Comunidade da Lagoa de Maricá estava a ser alvo de tentativas de destruição. Agradeci a manifestação de solidariedade:

“É nos momentos difíceis que os seres humanos se definem.

Resumiria a situação em dois ditos populares:

“Quando o barco corre risco de naufrágio, os primeiros a abandoná-lo são os ratos” e “Há cães que mordem a mão de quem lhes dá de comer”.

Os projetos com potencial inovador são feitos de resiliência e sofrimento. Muitas vezes, levados ao extremo de uma violência institucionalizada.

Gente de má índole tentava destruir a Associação criada na Comunidade da Lagoa de Maricá. Seria necessária a solidariedade de uma multidão para proteger pessoas que viviam em condições deploráveis, abaixo do limiar da pobreza. Não poderíamos permitir que pessoas egoístas e traiçoeiras extinguissem uma associação e o seu projeto, que prejudicassem crianças pobres e as suas famílias.

Entretanto, uma rede de comunidades de aprendizagem se formava. Nela, a família e a escola partilhavam a responsabilidade de educar. Em projetos de vida, nos quais a autoestima andava a par com a hetero-estima, onde cada ser humano era individualmente responsável pelos atos de todos os outros, onde a autoridade rimava com a liberdade e a firmeza rimava com a delicadeza, onde todos éramos seres únicos, irrepetíveis, especiais.

Foi, então, que eu decidi testar se éramos... TODOS.

Quem iria “dar a mão” àquela comunidade?

Quem iria “largar a mão”?

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Ubatuba, 17 de junho de 2045

Enquanto me afastava das terras e do mar caiçaras, recordava bons momentos, reencontros, aprendizagens, e lia aquilo que a minha amiga Roze escrevera sobre o evento que preparara com muito esmero: “O Pirão das Letras acabou.  Durante três dias alimentou corações famintos por acolhimento, reconhecimento e valorização. Todos provaram da porção que precisavam. Uns gostaram mais do tempero da alegria – outros, da esperança. Teve quem também se deliciou apenas com o calor do fogo, essencial para produzir o Pirão, principalmente em tempos gélidos como os de hoje. O Pirão das Letras acabou, mas teve gente que não foi embora sem levar um tantinho dele consigo. A fartura era tanta, que deu até para levar para casa (um livro, uma memória, uma emoção, um riso, um abraço quentinho de afeto). Os braços daqueles que por três dias mexeram o pirão estão exaustos, mas as almas estão leves, como leve são os passarinhos que carregam as sementes e, assim, cumprem o propósito divino de disseminar nova ...