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Santa Cruz do Sul, 24 de fevereiro de 2045

“A vida era igual aos grupos de camponeses que iam à missa aos domingos. A criança herdava naturalmente o conhecimento, as reflexões e o bom senso das gerações que caminhavam perto dela, tutelares [mas] as condições do meio mudaram radicalmente e as crianças só serão salvas utilizando métodos adaptados à dinâmica contemporânea.”

Na obra de onde extraí estas linhas, Celestin Freinet descrevia, há cerca de um século, um processo educacional anterior à emergência da Primeira Revolução Industrial.

Há cerca de vinte anos, deparei com personagens do drama educacional, que me “transportaram” ao tempo em que o eminente pedagogo escreveu essas palavras. Aqui vos deixo a descrição de um lamentável episódio.

Da agenda da reunião constava a apresentação de uma proposta de protocolo de avaliação de projetos considerados inovadores. Uma senhora apresentada como “especialista em currículo” ordenou a uma subordinada que desse início à sessão e passou a conduzir os trabalhos, lendo o conteúdo de um power point, como se os ouvintes fossem analfabetos e não o soubessem ler.

A ladainha era monótona e repleta de equívocos. Ao meu lado, um professor amigo suspirava de enfado, pois já deparara com vários disparates com chancela de cientificidade, que nenhum dos presentes ousara comentar. Não se conteve, quando a dita especialista em currículo referiu como critério de avaliação do projeto o “índice de reprovação”. E, respeitosamente, questionou:

“A senhora admite que projetos inovadores naturalizem o insucesso, que se reprove? Na nossa escola, acabamos com segmentações, não se reprova.”  

Do alto do seu pós-doutoramento, sem disfarçar a irritação, a “especialista” o interrompeu:

“Senhor professor, as outras escolas não são como a sua! Não podemos exigir mais dos professores. Eles não sabem trabalhar de outra maneira. O senhor não pode impor as suas teorias aos outros!”

Não agradou ao professor que a dita “especialista” tratasse os professores com condescendência. E respondeu que não se tratava de teoria, mas de práxis transformadoras, desenvolvidas em escolas onde arcaísmos como a reprovação deram lugar a uma avaliação formativa, contínua, sistemática.

Um esgar de desagrado e desdém atravessou a face da “especialista”. Ignorou a interpelação e passou, também, a ignorar a presença do professor.

A apresentação prosseguiu até ao momento em que a “especialista” prescreveu que fosse feita observação de aulas. Após escutar esse absurdo, o professor não se conteve e perguntou:

“Em que século estamos, minha senhora?”

Ela respondeu com ironia à ironia:

“Não queira parecer original! Terá de ser, mais ou menos, assim! E agradeço que não me interrompa!”

Observador atento, fui mais fundo na compreensão do drama daquela “especialista”, cativa de um modelo de escola que apenas admitia uma prática pautada num “mais ou menos”.

Em 2025, muitos anos decorridos sobre esse lamentável episódio, vivíamos, “mais ou menos”, submetidos às decisões de ““especialistas em currículo”, que consideravam os professores incapazes de compreender e ainda menos de fazer diferente, de inovar.

Gestores “mais ou menos”, formadores “mais ou menos”, técnicos superiores “mais ou menos” pariam bases curriculares e medidas (provisórias e definitivas) “mais ou menos”. Institutos, fundações e outras agências de financiamento apoiavam projetos “mais ou menos”, perpetuando a reprodução de seres humanos… “tipo mais ou menos”.

Até que chegou o fevereiro de 2025. Fixai esta data, pois dela vos voltarei a falar.

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