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Realengo, 28 de março de 2045

Cumprido um quarto de século sobre o “Massacre de Columbine”, a série “Adolescência” chegou para lembrar e prevenir. Estudos e punições não haviam logrado deter a onda de violência protagonizada por jovens possuídos pelo ódio à Escola. No Brasil, entre o fatídico 1999 de Columbine e o ano de 2023, cerca de meia centena de alunos e professores brasileiros morreram em ataques a escolas.

As imagens colhidas pelas câmera de filmar e os sons escutados pelos policiais, que visitaram a escola, eram idênticos àquelas que poderiam ser vistas e escutados em escolas de Colombine e do Realengo, dos EUA e do Brasil - as escolas permaneciam tão “prussianas” quanto no século passado: sala de aula, turma, sinal…
“Camisa pra dentro!”
“Desculpe, senhora!”
“De que merda ela tá reclamando? Que inferno!
“Quer saber? Vamos logo f… com a vida do Jamie!
“Vamos começar pela 8-G. É a turma do Jamie”
Aberta a porta da sala, depararam com uma professora aos gritos:
“Gente, para! Senta!”
“James, guarda os fones de ouvido, por favor”.
A voz de um aluno se sobrepõe à algazarra que vem do pátio – “Foi ele que matou? Que merda! Foi ele!” – Logo repreendido pela Diretora:
“Nada de falar palavrão! Não gostei nada dos seus modos, mocinho!”
Saindo da sala, a Diretora pede “Mil desculpas”:
“Este professor é recém-contratado”.
Os policiais passam por um professor que está ameaçando e “dando bronca” nos alunos.
“Então? Querem ficar de castigo? Eu posso mandar pro castigo sem o menor problema. Não podem usar celular!”
A Diretora, tentava justificar os gritos dos professores:
“Os professores estão todos arrasados, como podem ver.”
Os policiais perguntam: “Podemos ir à 10-G?”
E passam por mais salas de onde saem professorais berros:
“Já chega! Nem mais um pio! Abaixa as mãos e vê o vídeo!
Eu mandei parar com isso, Fredo. Eu já mandei parar!
Comigo, depois da aula! Tenha mais respeito!”
E, voltando-se para o policial:
“Desculpe. Isto é inaceitável.”
Entretanto, toca o “sinal”. E o policial não consegue conversar com a turma
“Só pode ser brincadeira. Alarme de incêndio…” – diz o professor - Todos em fila indiana! Atenção! Todos saindo do prédio da Escola em fila! Direto para as quadras de ténis! Sem fazer bagunça! Anda! Vamos! Continuem andando!”
Uma aluna pergunta:
“Será que é terrorismo? Será que estão atacando a nossa escola?
“Deve ser um alarme falso.” – responde a Diretora – “Se bem que alguém largou fogos de artifício no laboratório de computação no ano passado. Causou um incêndio.
Outro professor tenta acabar com a confusão:
“Tudo em fila! Ok, 9-G! Fazendo fila, vamos! Depressa!
Pessoal, eu já falei! Olha! Entra na fila!
Uma professora auxilia o colega:
“Você tá fora da fila, querida… Por favor! Parem, crianças! Calma!”
Uma aluna sai da fila e agride um colega, dando-lhe pontapés
“Filho da p…, desgraçado! Você matou a minha amiga! Seu assassino!”
Rindo, um aluno exclama:
Você apanhou de mulher, seu Babaca?!
Mais um professor intervém:
“Pra trás! Cheguem pra trás! Em fila! É a última vez! Você, já para a fila! E guardem os celulares!”
Crianças riem e troçam do professor:
“Eu não tou aí prás suas filas!”
Um policial desabafa:
“Porque será que as escolas têm sempre o mesmo cheiro? E tipo uma mistura de vomito, repolho e masturbação. Que cheiro horrível! Que inferno!”
No velhinho Instagram, uma amiga comentava a cena:
“A cena dos policiais dentro da escola, dizendo querer sair de lá, demonstra bem esse sentimento. Se o policial, que está acostumado com o pior que uma sociedade pode apresentar, acha a escola um lugar horroroso, o que dizer a respeito?”

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