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Cabo Frio, 29 de abril de 2045

A minha amiga Bianca era exímia na crítica do velho sistema. Comentou um textinho em que usei o termo “hecatombe”, para designar os efeitos da barbárie educacional dos idos de vinte (sugiro acompanhar a leitura com instantes de silencio em memória das vítimas do genocídio educacional):

“Hecatombe. A palavra pesava no ar daquela escola como um cadáver insepulto. As crianças a ouviam nos corredores, sussurrada pelos professores de cabeça baixa, gravada nas atas amareladas da diretoria. Seis sílabas que cheiravam a pólvora e terra arrasada. Não era metáfora, era um animal de dentes afiados, escondido sob as pranchetas do Ministério. 
Hecatombe é quando o futuro desiste de vir — explicou a professora Mariana ao pequeno Pedro.
E por que a senhora não foge? — ele perguntou, segurando um giz roubado como se fosse uma arma.
Porque alguém tem que ficar para contar histórias aos bichos — ela respondeu, apontando para as lagartixas, que observavam, imóveis, das rachaduras.  
Georges Bastin apareceu em sonho a Mariana. Trazia um livro sem páginas e um relógio parado.

A hecatombe não é monstro — sussurrou —, é espelho. Mostra o que vocês temem perder.
Enquanto isso, na cidade grande, os centros de explicações multiplicavam-se como capelas de um culto novo. Pais pagavam em ouro por "salvadores" que transformavam crianças em algoritmos. *
"Aqui, seu filho escapa da hecatombe!"*, gritavam os panfletos. Ninguém dizia que a fuga era ilusão. A hecatombe não era lugar: era condição.  
Mariana teimava. Plantava manjericão nos vasos quebrados, lia Drummond para as lagartixas, e ensinava matemática com pedras do rio.

Um dia, Pedro trouxe um girassol murcho.
Ele tá morto? — perguntou a criança.
Não — ela respondeu, colocando a flor em um copo d’água —. Só assustado.  
A hecatombe roncava mais perto. Fecharam a escola. Mariana recebeu a notícia sem surpresa. Enquanto os funcionários retiravam as carteiras, ela ficou no pátio, escavando a terra seca com as próprias mãos. Enterrou sementes de flores que nunca nasceriam. Ou nasceriam?

Anos depois, Pedro — com os mesmos olhos assustados — passou pelo terreno baldio onde fora a escola. Entre o mato alto, viu um girassol. Único, retorcido, amarelo como fogo. Na cerca, uma placa oxidada dizia:  
"Aqui jaz uma hecatombe. (E seu medo também)”

Ao longe, Mariana observava. Sorria. Sabia que a palavra ainda doía, mas agora havia uma flor para distraí-la.
Começou como todo crush começa: com vergonha, com medo, com aquele pensamento estúpido: "não vai dar em nada". Assim também eram nossas dúvidas na escola: pequenas, tímidas, quase pedindo desculpas por existirem.
(…)
Nossa "instituição de ensino" (termo técnico para fábrica de obedientes) chamava-se, ironicamente, "Colégio Futuro Brilhante". Tinha tudo: tecnologia de ponta, professores treinados em workshops de produtividade e um aplicativo que monitorava até o número de bocejos por aula. Só não tinha uma coisa: espaço para ser gente.
Numa aula sobre "Gestão Emocional para Alta Performance", a Laura rabiscou na carteira:
"Se eu fosse uma máquina, teria pelo menos botão de desligar?"
Uma menina criou um clube secreto onde, em vez de estudar para o ENEM, plantávamos sementes de maracujá nas frestas da quadra.
A escola chamou reforços: psicólogos, coachs, até um padre para exorcizar nossa "rebeldia improdutiva".
Hoje, o "Colégio Futuro Brilhante" é uma ruína simpática coberta de trepadeiras. Às vezes passo por lá só para rir da placa caída no chão – “Prepare se para o sucesso!", servindo de abrigo para uma colônia de formigas.

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Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...