A minha amiga Bianca era exímia na crítica do velho sistema. Comentou um textinho em que usei o termo “hecatombe”, para designar os efeitos da barbárie educacional dos idos de vinte (sugiro acompanhar a leitura com instantes de silencio em memória das vítimas do genocídio educacional):“Hecatombe. A palavra pesava no ar daquela escola como um cadáver insepulto. As crianças a ouviam nos corredores, sussurrada pelos professores de cabeça baixa, gravada nas atas amareladas da diretoria. Seis sílabas que cheiravam a pólvora e terra arrasada. Não era metáfora, era um animal de dentes afiados, escondido sob as pranchetas do Ministério.
Hecatombe é quando o futuro desiste de vir — explicou a professora Mariana ao pequeno Pedro.
E por que a senhora não foge? — ele perguntou, segurando um giz roubado como se fosse uma arma.
Porque alguém tem que ficar para contar histórias aos bichos — ela respondeu, apontando para as lagartixas, que observavam, imóveis, das rachaduras.
Georges Bastin apareceu em sonho a Mariana. Trazia um livro sem páginas e um relógio parado.
A hecatombe não é monstro — sussurrou —, é espelho. Mostra o que vocês temem perder.
Enquanto isso, na cidade grande, os centros de explicações multiplicavam-se como capelas de um culto novo. Pais pagavam em ouro por "salvadores" que transformavam crianças em algoritmos. *
"Aqui, seu filho escapa da hecatombe!"*, gritavam os panfletos. Ninguém dizia que a fuga era ilusão. A hecatombe não era lugar: era condição.
Mariana teimava. Plantava manjericão nos vasos quebrados, lia Drummond para as lagartixas, e ensinava matemática com pedras do rio.
Um dia, Pedro trouxe um girassol murcho.
Ele tá morto? — perguntou a criança.
Não — ela respondeu, colocando a flor em um copo d’água —. Só assustado.
A hecatombe roncava mais perto. Fecharam a escola. Mariana recebeu a notícia sem surpresa. Enquanto os funcionários retiravam as carteiras, ela ficou no pátio, escavando a terra seca com as próprias mãos. Enterrou sementes de flores que nunca nasceriam. Ou nasceriam?
Anos depois, Pedro — com os mesmos olhos assustados — passou pelo terreno baldio onde fora a escola. Entre o mato alto, viu um girassol. Único, retorcido, amarelo como fogo. Na cerca, uma placa oxidada dizia:
"Aqui jaz uma hecatombe. (E seu medo também)”
Ao longe, Mariana observava. Sorria. Sabia que a palavra ainda doía, mas agora havia uma flor para distraí-la.
Começou como todo crush começa: com vergonha, com medo, com aquele pensamento estúpido: "não vai dar em nada". Assim também eram nossas dúvidas na escola: pequenas, tímidas, quase pedindo desculpas por existirem.
(…)
Nossa "instituição de ensino" (termo técnico para fábrica de obedientes) chamava-se, ironicamente, "Colégio Futuro Brilhante". Tinha tudo: tecnologia de ponta, professores treinados em workshops de produtividade e um aplicativo que monitorava até o número de bocejos por aula. Só não tinha uma coisa: espaço para ser gente.
Numa aula sobre "Gestão Emocional para Alta Performance", a Laura rabiscou na carteira:
"Se eu fosse uma máquina, teria pelo menos botão de desligar?"
Uma menina criou um clube secreto onde, em vez de estudar para o ENEM, plantávamos sementes de maracujá nas frestas da quadra.
A escola chamou reforços: psicólogos, coachs, até um padre para exorcizar nossa "rebeldia improdutiva".
Hoje, o "Colégio Futuro Brilhante" é uma ruína simpática coberta de trepadeiras. Às vezes passo por lá só para rir da placa caída no chão – “Prepare se para o sucesso!", servindo de abrigo para uma colônia de formigas.
Hecatombe é quando o futuro desiste de vir — explicou a professora Mariana ao pequeno Pedro.
E por que a senhora não foge? — ele perguntou, segurando um giz roubado como se fosse uma arma.
Porque alguém tem que ficar para contar histórias aos bichos — ela respondeu, apontando para as lagartixas, que observavam, imóveis, das rachaduras.
Georges Bastin apareceu em sonho a Mariana. Trazia um livro sem páginas e um relógio parado.
A hecatombe não é monstro — sussurrou —, é espelho. Mostra o que vocês temem perder.
Enquanto isso, na cidade grande, os centros de explicações multiplicavam-se como capelas de um culto novo. Pais pagavam em ouro por "salvadores" que transformavam crianças em algoritmos. *
"Aqui, seu filho escapa da hecatombe!"*, gritavam os panfletos. Ninguém dizia que a fuga era ilusão. A hecatombe não era lugar: era condição.
Mariana teimava. Plantava manjericão nos vasos quebrados, lia Drummond para as lagartixas, e ensinava matemática com pedras do rio.
Um dia, Pedro trouxe um girassol murcho.
Ele tá morto? — perguntou a criança.
Não — ela respondeu, colocando a flor em um copo d’água —. Só assustado.
A hecatombe roncava mais perto. Fecharam a escola. Mariana recebeu a notícia sem surpresa. Enquanto os funcionários retiravam as carteiras, ela ficou no pátio, escavando a terra seca com as próprias mãos. Enterrou sementes de flores que nunca nasceriam. Ou nasceriam?
Anos depois, Pedro — com os mesmos olhos assustados — passou pelo terreno baldio onde fora a escola. Entre o mato alto, viu um girassol. Único, retorcido, amarelo como fogo. Na cerca, uma placa oxidada dizia:
"Aqui jaz uma hecatombe. (E seu medo também)”
Ao longe, Mariana observava. Sorria. Sabia que a palavra ainda doía, mas agora havia uma flor para distraí-la.
Começou como todo crush começa: com vergonha, com medo, com aquele pensamento estúpido: "não vai dar em nada". Assim também eram nossas dúvidas na escola: pequenas, tímidas, quase pedindo desculpas por existirem.
(…)
Nossa "instituição de ensino" (termo técnico para fábrica de obedientes) chamava-se, ironicamente, "Colégio Futuro Brilhante". Tinha tudo: tecnologia de ponta, professores treinados em workshops de produtividade e um aplicativo que monitorava até o número de bocejos por aula. Só não tinha uma coisa: espaço para ser gente.
Numa aula sobre "Gestão Emocional para Alta Performance", a Laura rabiscou na carteira:
"Se eu fosse uma máquina, teria pelo menos botão de desligar?"
Uma menina criou um clube secreto onde, em vez de estudar para o ENEM, plantávamos sementes de maracujá nas frestas da quadra.
A escola chamou reforços: psicólogos, coachs, até um padre para exorcizar nossa "rebeldia improdutiva".
Hoje, o "Colégio Futuro Brilhante" é uma ruína simpática coberta de trepadeiras. Às vezes passo por lá só para rir da placa caída no chão – “Prepare se para o sucesso!", servindo de abrigo para uma colônia de formigas.
