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Covilhã, 21 de abril de 2045

O périplo português de vinte e cinco passara pela Beira Interior. A Chris e a Shirley me acompanharam à rodoviária, onde um televisor dava uma notícia de “Última Hora”: “Morreu o Papa Francisco”.

Toda a aprendizagem resulta da imitação, do exemplo. E o humanista Francisco argentino (e universal) bem o sabia:

“Este sistema, com a sua lógica implacável, escapa ao domínio humano. É preciso trabalhar por mais justiça e cancelar este sistema de morte. Esta Economia mata”.

João XXIII dissera que a Igreja era o “Povo de Deus em Marcha”. O Papa Francisco nos convidava a reinventar a Escola, a colocar a “Pessoa na Casa Comum”, chamada a viver e a reencontrar o dom da fraternidade, num novo tipo de relação humana a que chamávamos “aprender em comunidade”. Atento à extinção de espécies e à degradação ambiental, asseverou ser necessária uma educação que respeitasse a diversidade e a inclusão.

"É necessário acelerar esse movimento inclusivo da educação, para combater a cultura do descarte, criada pela rejeição da fraternidade como elemento constitutivo da humanidade”.

A educação é uma realidade dinâmica. Trata-se de um tipo de movimento orientado ao desenvolvimento pleno da pessoa em sua dimensão individual e social, uma educação que coloca a pessoa no centro de sua realidade e da Casa Comum em que é chamada a viver.

O movimento educativo construtor de paz é uma força que deve ser alimentada contra a “egolatria” que cria a falta de paz, fraturas entre as gerações, povos, culturas, populações ricas e pobres, homens e mulheres, economia e ética, humanidade e ambiente”.

Um novo pacto educacional deverá ser revolucionário. É preciso coragem, a coragem de investir as melhores energias, a coragem de formar pessoas disponíveis para se colocarem a serviço da comunidade”.

E a comunidade reagia:

“Somos pais, crianças, professores, cozinheiros, tutores, marceneiros, arquitetos, jardineiros, ambientalistas, músicos e… todo o bairro!”

Nas duas margens do Atlântico, muitos educadores agiam, para reverter anómalas situações, num projeto comum, que se esboçava em 2025.

Algures, em finais de novembro do já distante 2021, era publicado um relatório, que dizia:

“Ao longo de dois anos e com base nas contribuições de mais de um milhão de pessoas, uma Comissão Internacional independente preparou um relatório global sobre o Futuro da Educação. A Iniciativa “Futuros da Educação” foi lançada pela UNESCO, em setembro de 2019, e baseou-se num processo mundial consultivo amplo e aberto que envolveu jovens, educadores, sociedade civil, governos, empresas e outras partes interessadas. Revelou-se numa iniciativa de cariz global, para repensar que o conhecimento e a aprendizagem podem moldar o futuro da humanidade e do planeta – repensar a educação e moldar o futuro.

O Relatório não foi apenas o resultado um plano, mas o resultado vivo da contribuição de todos, reforçando que a humanidade tem futuros comuns e que para forjar futuros pacíficos, justos e sustentáveis, é preciso transformar a própria educação”.

Vivia-se um tempo de esperança, de tentativas de “desencerramento” da infância. A Humanidade parecia ter despertado de longa letargia.

Humanistas como Mia Couto propunham que "cada um fizesse a sua parte, para que se desse um novo reencantamento do mundo, a começar por nosso mundo interior”. O Mestre Milton Santos dissera que a educação abrira “espaço para qualquer forma de barbárie”.

E Francisco fraternalmente denunciava a barbárie, apelando ao “renovar a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva”.


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Marina da Glória, 24 de novembro de 2043

Voltava do Rio com uma estranha sensação de “dejá vú” e, num cantinho da Internet, me aguardava um textinho do amigo Matias com o título “ O supermercado, a escola e a guerra civil”. “Para evitar o desespero e criar novos entusiasmos, para libertar as iniciativas e suscitar a criatividade, acreditamos que é hoje mais razoável decidir mudar de viatura do que esgotarmo-nos a consertar um motor definitivamente desconsertado.  A escola transformou-se num supermercado onde os adultos distribuem conhecimentos que apenas servem para ter sucesso na escola.” Esta é a tese de Philippe Meirieu e de George Marc, desenvolvida na obra “L’école ou la guerre civile”. Segundo os autores, as escolas são hoje máquinas, que tanto integram como excluem, e os professores que escolhem a profissão não têm condições para responder positivamente à imensidão de pedidos e mandatos sociais, trabalhando no mesmo modelo (no mesmo molde) escolar. Para evitar o stress e a depressão profissionais, a fuga da escola ...